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terça-feira, 29 de setembro de 2026

O LIVRO DE JONAS por Vilna Gaon



O Gaon de Vilna lê o Livro de Yonah em um nível inteiramente alegórico: Yonah representa a neshamá, a alma humana, enviada por Havayah a este mundo com uma missão específica. A história do profeta que recebe uma ordem, foge, entra num navio, enfrenta uma tempestade e finalmente é lançado ao mar descreve, nessa leitura, a trajetória da alma desde sua origem superior até sua entrada no corpo, sua corrupção pelos desejos deste mundo, a aproximação da morte e sua separação do corpo.

A missão original da alma

A alma é enviada a este mundo para realizar um tikun, uma reparação. Esse tikun possui duas dimensões: cada pessoa deve realizar seu próprio tikun e, ao mesmo tempo, participar do tikun do mundo inteiro.

Porém, no caso descrito pela história de Yonah, a alma não somente deixa de cumprir aquilo para que foi enviada, como acaba corrompendo a si mesma. Por essa razão, depois de sua primeira passagem pelo mundo, ela precisará retornar em um segundo gilgul, uma nova encarnação, para completar aquilo que deixou de fazer.

Nesse segundo gilgul ela efetivamente realizará seu tikun, mas enfrentará sofrimentos, relacionados à adversidade de seu mazal. Assim, já no início do comentário, o Gaon estabelece que a história de Yonah descreve tanto o fracasso de uma primeira descida da alma quanto sua posterior possibilidade de reparação.

“E veio a palavra de Havayah a Yonah”

Quando o texto diz:

“E veio a palavra de Havayah a Yonah”,

isso representa Havayah enviando a alma ao mundo e dizendo-lhe, em essência:

“Entra no corpo de determinada pessoa e realiza Minha vontade.”

Portanto, o envio profético de Yonah corresponde ao envio da alma para dentro de um corpo específico.

O próprio nome Yonah, “pomba”, representa a alma.

O Gaon apresenta várias razões para essa identificação.

Primeiro, apoiando-se no Zohar, associa a alma à expressão “pomba ingênua, sem entendimento”.

Depois lembra a passagem de Shabat 49 sobre a maneira como as asas da pomba a protegem.

Há ainda outra característica: a pomba não abandona seu companheiro. Isso se relaciona ao Shir HaShirim:

“Minha pomba, minha perfeita.”

Finalmente, a pomba se deixa levar ao abate sem lutar. Isso é relacionado ao versículo:

“Por Tua causa somos mortos o dia inteiro.”

O Gaon também menciona um Midrash que descreve alguém sofrendo por permanecer fiel às mitzvot, inclusive à circuncisão de seu filho.

Por essas razões, a alma recebe o nome Yonah, “pomba”, tanto no primeiro quanto no segundo gilgul, quer sua situação seja favorável, quer seja desfavorável.

“Yonah ben Amitai”

Ben Amitai, “filho de Amitai”, também é interpretado alegoricamente.

A alma é “filha” do Santo, bendito seja Ele, pois está escrito:

“Filhos sois de Havayah, vosso Elohim.”

O Zohar explica que, assim como existe um pai para o corpo, existe um Pai da alma.

Além disso, Amitai é associado a Emet, Verdade, porque o selo do Santo, bendito seja Ele, é Emet.

O Gaon menciona também Yoma 57, onde Rabbi Yitzchak explica que os Sábios sabiam que o Santo, bendito seja Ele, é verdadeiro e, justamente por isso, não mentiriam diante Dele.

Assim, “Yonah ben Amitai” passa a significar alegoricamente: a alma que procede do Deus verdadeiro.

“Dizendo”

A palavra “dizendo” indica que aquilo que Havayah ensina à alma deve ser transmitido.

O conteúdo fundamental dessa mensagem é que os seres humanos precisam saber por que vieram a este mundo.

A resposta do Gaon é explícita: cada pessoa veio para realizar seu próprio tikun e o tikun do mundo inteiro.

“Levanta-te e vai”

“Levanta-te” significa:

Sai do lugar onde permanecias, no Gan Eden.

“Vai” significa:

Desce ao mundo material.

A viagem de Yonah, portanto, começa como a própria descida da alma do Gan Eden para este mundo.

Nínive é este mundo

Nínive representa este mundo.

O Gaon relaciona Nínive à ideia da morada de Havayah. Este mundo é o “escabelo de Seus pés” e, paradoxalmente, é justamente aqui que o ser humano precisa trabalhar para reparar a morada divina.

Por isso a alma não foi enviada ao mundo por acidente. Este mundo é precisamente o lugar de seu trabalho.

“A grande cidade”

O ser humano é tradicionalmente chamado de pequeno mundo e também de pequena cidade.

Se o homem é a pequena cidade, então o mundo inteiro é a:

“grande cidade”.

Assim, quando Yonah é enviado à grande cidade, a alma está sendo enviada ao grande mundo no qual deverá realizar seu tikun.

“Proclama contra ela”

A alma deve ensinar conhecimento ao ser humano para que ele abandone seu mau caminho.

Portanto, a missão de Yonah de advertir Nínive representa a função espiritual da alma dentro do homem: chamá-lo à teshuvá e conduzi-lo ao tikun.

“Pois sua maldade subiu diante de Mim”

Os pecados não são apresentados apenas como atos passados. Segundo o comentário, eles produzem mekatregim, acusadores espirituais.

Esses acusadores permanecem diante do Tribunal celestial, clamando contra a pessoa.

O Gaon relaciona isso à impureza do Mikdash e ao versículo:

“O fim de toda carne veio diante de Mim.”

Ele remete aqui ao Zohar, Parashat Vayechi.

A fuga da alma

“Yonah levantou-se para fugir”

A fuga de Yonah representa a alma que, em vez de cumprir sua missão, foge de Havayah.

É justamente por isso que o retorno espiritual recebe o nome Teshuvá, literalmente “retorno”.

O Ba'al Teshuvá é aquele que deixa de fugir e retorna:

“Retornai a Mim...”

Tarshish: os desejos e as riquezas deste mundo

Yonah foge para Tarshish.

Para o Gaon, Tarshish representa a busca pelos prazeres, desejos e riquezas deste mundo.

Ele apoia essa interpretação em Yechezkel 27, onde Tarshish aparece relacionada ao comércio, à abundância, à prata e ao ouro.

Assim, fugir para Tarshish significa abandonar o objetivo espiritual para perseguir satisfação material, riqueza e desejo corporal.

“Da presença de Havayah”

Antes de entrar neste mundo, a alma encontra-se diante de Havayah.

O Gaon cita a expressão:

“Vive Havayah, diante de quem estive.”

Se a pessoa serve corretamente a Havayah, depois desta vida sua alma retorna ao Olam HaBa e novamente permanece diante Dele.

Mas durante sua vida terrena, quando se entrega aos desejos, ela está simbolicamente fugindo da presença divina, assim como está escrito sobre Kayin:

“E Kayin saiu da presença de Havayah.”

A descida ao corpo

“E desceu a Yafo”

Yafo representa a descida da alma ao mundo corporal.

O nome é associado à ideia de beleza, e a beleza exterior está relacionada aos desejos corporais — como na expressão:

“Bela de aparência.”

O Gaon também relaciona isso à Árvore do Conhecimento e à expressão:

“Desejável aos olhos.”

Portanto, Yafo representa o domínio no qual aquilo que é atraente aos sentidos exerce força sobre o ser humano.

O navio é o corpo

Yonah encontra um navio.

Esse navio representa o corpo humano.

O Gaon relaciona a palavra a expressões de lamento e sofrimento, porque a existência corporal neste mundo está ligada a trabalho, dor e aflição:

“Todos os seus dias são dores e sofrimentos.”

E:

“O homem nasce para o trabalho.”

Aqui surge uma das principais imagens de todo o comentário:

o mundo presente é o mar;
o corpo é o navio;
a alma é o viajante;
o Olam HaBa e o Gan Eden são a terra firme.

Quem entra num navio não pretende estabelecer residência permanente no oceano. Desce ao mar para obter mercadorias que posteriormente levará para terra firme.

Da mesma maneira, a alma entra neste mundo para adquirir aqui aquilo que levará consigo para o Olam HaBa.

As dificuldades da vida são, portanto, as ondas do mar:

“Todas as Tuas vagas e Tuas ondas...”

e:

“As águas me cercaram...”

O corpo é o veículo que permite à alma navegar neste “mar”. Por meio dele ela entra neste mundo e, depois, deve chegar à “terra firme”, o Olam HaBa.

A relação entre alma e corpo

O Gaon introduz então uma imagem importante: a alma é como o marido do corpo.

Ele remete ao Midrash HaNe'elam sobre Avraham e Sarah.

Nesse simbolismo, a qualidade do corpo com o qual a alma se associa é decisiva.

A Eshet Chayil, a “mulher virtuosa” de Mishlei, representa um corpo cuja constituição está preparada para o serviço de Elohim.

Por isso:

“Quem encontrou uma mulher encontrou o bem.”

Em contraste, a “mulher má” representa uma constituição corporal inclinada ao mal.

A alma pode, portanto, encontrar uma matéria corporal que coopera com sua missão ou uma matéria corporal naturalmente inclinada aos desejos deste mundo.

“E pagou sua passagem”

O pagamento da passagem significa que a alma submete seu intelecto às forças corporais.

Em vez de governar o corpo, começa a empregar suas capacidades para satisfazer os desejos dele.

O “salário” recebido pelo corpo é o prazer obtido através do pecado.

O Gaon remete aqui a Chovot HaLevavot e ao ensinamento:

“O ganho de uma transgressão deve ser considerado diante de sua perda.”

Ele explica também a tradição segundo a qual Yonah teria pago o preço de todo o navio: isso significa que, quando ocorre a transgressão, todos os membros do corpo participam de seu prazer.

É nesse contexto que aparece:

“A sabedoria do pobre é desprezada.”

Os membros não querem obedecer ao Yetzer Tov, porque o Yetzer HaRa oferece satisfação imediata:

“Alegra-te, jovem, em tua juventude...”

Isto é: desfruta agora.

O Yetzer Tov, ao contrário, adverte:

“Mas sabe que por todas estas coisas...”

Isto é, lembra que haverá julgamento.

Esse prazer obtido através do pecado é chamado pelo Gaon de “pagamento de uma prostituta”, relacionando-o à mulher sedutora de Mishlei.

“E desceu nele”

A entrada de Yonah no navio significa que a alma entrou no corpo.

Para a alma, isso é uma descida imensa:

“De um teto elevado para um poço profundo.”

O corpo é também a “pequena cidade”. Dentro dessa cidade encontram-se seus “habitantes”: as diversas forças corporais — nutrição, crescimento, desejo, movimento e as demais faculdades — juntamente com todos os membros.

Quando essas forças passam a perseguir Tarshish, todo o organismo se orienta para os desejos deste mundo, afastando-se da presença de Havayah.

O Din começa a agir

“E Havayah lançou um grande vento”

A expressão “Havayah” é entendida aqui como:

Ele e Seu Beit Din, isto é, Havayah juntamente com Seu Tribunal.

O “grande vento” representa a Midat HaDin, o Atributo do Julgamento.

Esse Din acusa constantemente o homem diante do Tribunal celestial. Quando chega o momento em que o homem é entregue ao seu domínio, o agente do Din desce para tomar sua alma.

Ele é chamado de “grande” porque o Gaon associa a grandeza, nesse contexto, à Kelipah.

Esav é chamado de filho “grande”, enquanto Yaakov é chamado “pequeno”. Os Tzadikim também são relacionados à pequenez, porque a Kedushah se faz pequena, ideia que o Gaon relaciona ao Zohar.

Surge então uma identificação mais específica: a espada do Anjo da Morte é Lilit-Chaz veShalom!.

Primeiro ela seduz o homem; posteriormente, toma sua alma.

A “gota de fel” suspensa na espada do Anjo da Morte também é identificada com ela. O Gaon relaciona isso a Mishlei:

“Os lábios da mulher estrangeira destilam mel... mas seu fim é amargo como o absinto, afiado como uma espada de dois gumes.”

Os dois gumes significam que a consequência do pecado atinge o homem em dois mundos: neste mundo e no Mundo Vindouro.

O mar e a terra firme

O mar continua representando este mundo; a terra firme, o Mundo Vindouro.

O Gaon então cita a conhecida passagem de Tamid 32, na qual Alexandre da Macedônia pergunta aos Sábios do Sul:

“É melhor habitar no mar ou em terra firme?”

Eles respondem:

“Em terra firme, pois todos aqueles que descem ao mar não ficam tranquilos até retornarem à terra firme.”

O Gaon entende essa conversa em sentido mais profundo.

Alexandre possuía enorme poder e os prazeres deste mundo. Sua pergunta seria, portanto:

O que é melhor: este mundo, mesmo quando alguém possui nele tranquilidade e abundância, ou o Mundo Vindouro?

O Gaon compara isso à pergunta feita por Bar Sheshach a Rava:

“Vocês possuem algo semelhante a isto no Mundo Vindouro?”

Rava responde que aquilo que existe para Israel é superior.

A ideia é que nem mesmo alguém que possuísse o mundo inteiro encontraria verdadeira segurança aqui:

“Todos os seus dias são dores.”

E:

“Quem aumenta seus bens aumenta suas preocupações.”

Além disso:

“O homem não morre tendo alcançado sequer metade de seu desejo.”

Quanto mais possui, mais deseja possuir.

No Olam HaBa, ao contrário, a pessoa sabe que aquilo que possui não lhe será retirado e encontra satisfação em sua porção.

É por isso que os Sábios dizem que ali não existe a mesma dinâmica de inveja e ódio, e por isso a morte de um Tzadik é descrita como:

“Sua alma repousou.”

Também é nesse sentido que se diz:

“Uma hora de satisfação espiritual no Mundo Vindouro é melhor...”

Assim, aquele que está no “mar” deste mundo deseja finalmente alcançar a “terra firme”.

A tempestade: doença e aproximação da morte

“E houve uma grande tempestade no mar”

A tempestade representa a atuação do Din neste mundo.

Inicialmente, porém, o Din não toma imediatamente a alma. Primeiro ele atinge o corpo, afligindo-o com doenças graves.

O Gaon relaciona isso à expressão de Kohelet:

“Uma doença má.”

Somente depois o Din vem tomar a alma por meio dessas enfermidades.

Por isso a tempestade atinge especificamente o navio de Yonah. O Gaon lembra Pirkei deRabbi Eliezer e Midrash Rabbah: a tempestade atingia aquele navio, enquanto os outros navios navegavam em paz.

Na alegoria, a tempestade não é uma calamidade geral do mundo: é o Din particular que chegou àquele corpo.

“E o navio pensou que iria se quebrar”

O corpo finalmente percebe que será destruído.

Durante a maior parte da vida, diz o Gaon, o homem vive como se este mundo lhe pertencesse e como se jamais fosse morrer. Quando a doença se agrava, essa ilusão termina: ele percebe que a morte é inevitável.

Há, porém, uma diferença fundamental entre alma e corpo.

A alma, embora tenha de responder por suas transgressões, não está necessariamente perdida para sempre. Ela ainda pode receber reparação através do gilgul:

“Duas vezes, três vezes, com o homem...”

O corpo, porém, não recebe esse mesmo tipo de reparação através do gilgul. Ele é comparado a um vaso de barro que, depois de quebrado, não possui reparação.

É por isso que o versículo diz que o navio “pensou” que seria quebrado. O Gaon observa que atribuir pensamento a um navio literal seria estranho; isso confirma a leitura alegórica segundo a qual o navio é o corpo humano.

Os marinheiros: as forças que governam o corpo

“E os marinheiros temeram”

Os marinheiros são as forças responsáveis pela direção do corpo:

o cérebro, o coração e as demais forças corporais.

Quando a morte se aproxima, todas essas forças entram em crise.

“Cada homem clamou ao seu deus”

Esses “deuses” são aquilo em que o homem confiou durante sua vida: especialmente prata e ouro.

O Gaon os chama de:

“deuses de prata e deuses de ouro.”

Na hora da morte, porém, aquilo que a pessoa acumulou não pode salvá-la:

“Lançarão sua prata pelas ruas.”

E:

“A riqueza não será útil no dia da ira.”

É também o sentido de:

“Aqueles que confiam em suas riquezas...”

A fortuna, que durante a vida parecia fornecer segurança, revela-se incapaz de impedir o Din.

Lançando os objetos para fora do navio

Quando os marinheiros lançam os objetos do navio ao mar, o Gaon oferece duas interpretações.

A primeira é literalmente corporal: a pessoa enferma tira suas roupas, deita-se no leito e chega a um estado em que até as roupas se tornam pesadas sobre seus membros.

No fim, ela deixará tudo isso neste mundo.

A segunda interpretação é espiritual: as roupas e os bens são dados à Tzedakah, numa tentativa de aliviar o rigor do decreto.

Assim, “lançar ao mar para aliviar o navio” significa tentar aliviar o peso do Din que recai sobre a pessoa.

A alma começa a retirar-se do corpo

“Yonah desceu às partes mais profundas do navio”

Aqui começa uma descrição extraordinariamente concreta da morte.

Yonah, isto é, a neshamá, desce até as partes inferiores do navio, ou seja, até as pernas do corpo.

O Gaon relaciona isso ao Tikkun 20 e ao versículo:

“E deitou-se aos seus pés.”

“Deitou-se e adormeceu profundamente”

A pessoa encontra-se agora deitada no leito e sobre ela cai uma tardemah, um sono profundo.

O Gaon entende isso como o estado que acompanha a aproximação da morte.

Ele cita:

“Quando o sol estava para se pôr, um sono profundo caiu sobre ele.”

O pôr do sol simboliza o desaparecimento da luz da alma.

Também relaciona isso ao versículo:

“Antes que se escureça o sol...”

O sol, a luz e a lua representam, nessa leitura, a retirada da alma.

A “tardemah de Avraham” também é relacionada à alma, porque no Midrash HaNe'elam Avraham representa a alma.

O Gaon chega a distinguir os termos hebraicos utilizados para “navio”.

Enquanto o corpo está forte e em pleno curso pelo “mar” da vida, ele é chamado oniyah.

Quando já está próximo da “terra firme”, isto é, próximo de deixar este mundo, passa a ser chamado sefinah.

Por isso Mishlei fala do:

“caminho de um navio [oniyah] no coração do mar.”

O coração chama a alma

“E chamou-o o capitão”

O capitão do navio é o coração.

Ele é chamado chefe dos dirigentes porque ocupa a posição central entre as forças que governam o corpo.

O coração chama Yonah — isto é, chama a neshamá.

“Que tens, adormecido? Levanta-te, clama ao teu Deus”

O coração dirige-se à alma:

“Levanta-te!”

Isto é: volta-te Àquele de Quem foste talhada.

Nesse momento extremo, ainda existe preocupação com a possibilidade de reparação:

“Talvez Deus Se volte para nós e não pereçamos.”

Mas surge uma distinção importante. A neshamá pode ser reparada; o corpo não possui a mesma possibilidade. E ligados ao destino corporal encontram-se também a nefesh e o ruach da animalidade.

Portanto, a súplica é para que aquilo que ainda pode ser salvo espiritualmente seja reparado.

A investigação dos pecados

“Lancemos sortes”

As forças e os membros do corpo começam, alegoricamente, a perguntar uns aos outros:

Qual pecado provocou este decreto?

Foi o pecado da língua?

Foi o pecado do órgão sexual?

Foi causado por algum outro membro?

“Lançar sortes” significa, nessa leitura, examinar e investigar os próprios atos, procurando descobrir qual transgressão provocou o decreto.

“A sorte caiu sobre Yonah”

Finalmente a investigação chega a Yonah, a neshamá.

O Gaon afirma aqui algo importante sobre a responsabilidade da alma: quando a alma é boa, ela possui poder para transformar o corpo inteiro para o bem, mesmo quando a constituição material do corpo é naturalmente ruim.

Ele relaciona isso à expressão de Mishlei sobre o “homem de iniquidade” e também à máxima de Pirkei Avot sobre possuir um “bom coração”.

O coração é a morada da alma e, nesse sentido, inclui o conjunto da pessoa.

As perguntas feitas à alma

Os marinheiros agora interrogam Yonah. Na alegoria, as forças do corpo interrogam a alma.

“Por causa de quem nos sobreveio este mal?”

A pergunta significa:

Quem será punido contigo?

Qual membro?

Qual força?

Qual nível da nefesh?

Ou seja, quais partes do organismo e de sua vida psíquica estão implicadas no julgamento?

“Qual é a tua ocupação?”

Isto significa:

Que missão Havayah te deu quando te enviou ao mundo?

A alma é obrigada a recordar o propósito para o qual entrou no corpo.

“De onde vens?”

A pergunta significa:

De qual lugar foste talhada?

Se a alma veio de uma raiz superior, seus atos deveriam ter sido orientados para retornar àquela raiz, em vez de se ocuparem exclusivamente com os negócios deste mundo.

“Qual é a tua terra?”

A pergunta aponta para a Terra da Vida, de onde a alma saiu e para onde deveria retornar.

O Gaon relaciona isso ao Zohar e às palavras:

“Para cultivá-la e guardá-la.”

Ele interpreta isso através dos mandamentos positivos e negativos: cumprir aquilo que deve ser feito e evitar aquilo que é proibido.

“De que povo és?”

Agora a investigação alcança a identidade espiritual.

O Gaon diz que a pessoa passou a vida sem andar adequadamente no caminho de Israel, relacionando isso a:

“E misturaram-se...”

Em seguida apresenta uma ideia presente no vocabulário do Zohar: mesmo entre Israel existem pessoas cujas raízes possuem relação, em alguma medida, com Erev Rav, Amalek e outras nações.

O comentário então relaciona todas essas perguntas a Lech Lecha, segundo o Midrash HaNe'elam:

“Vai-te da tua terra” corresponde a “Qual é a tua terra?”

A “terra” é associada aqui ao Gan Eden inferior.

“Da tua terra natal” corresponde a “De onde vens?”

“Da casa de teu pai” corresponde a “De que povo és?”

E:

“Para a terra que Eu te mostrarei”

corresponde a:

“Qual é a tua ocupação?”

Isto é: ali será mostrado à alma aquilo que ela deve fazer.

A resposta da alma

“Eu sou hebreu”

Yonah responde:

“Ivri anochi — eu sou hebreu.”

O Gaon relaciona Ivri à ideia de estar “do outro lado” (ever), como no versículo:

“Além do rio habitaram vossos pais.”

Mas oferece ainda uma interpretação mística: trata-se do Gan Eden superior, lugar do qual procede a Glória e do qual a alma foi talhada.

Esse lugar encontra-se “além” do rio Dinur, o rio de fogo, pelo qual é necessário passar.

Assim, “eu sou Ivri” descreve a alma como alguém cuja verdadeira origem está além do rio, no domínio superior.

Segundo o Gaon, essa declaração responde simultaneamente a duas das perguntas anteriores.

“Ao Deus dos céus eu temo”

Essa é a resposta à pergunta:

“Qual é a tua ocupação?”

A verdadeira ocupação da alma deveria ser Yirat Shamayim, temor do Deus dos céus.

“Que fez o mar e a terra seca”

O “mar” e a “terra seca” voltam a representar os dois domínios:

este mundo, de um lado;

Olam HaBa e Gan Eden, do outro.

A missão consiste em preparar, enquanto se está no mar, aquilo que será levado para a terra firme.

Em outras palavras: utilizar esta vida para preparar aquilo que permanecerá no mundo futuro.

Essa é a resposta à pergunta:

“Qual é a tua terra?”

A gravidade da descoberta

“Os homens temeram com grande temor”

Agora as forças corporais percebem a grandeza da alma e de sua missão.

Por isso perguntam:

“Que é isto que fizeste conosco?”

A ideia é:

Se foste criada para uma missão tão elevada e tua origem é tão sublime, como pudeste viver dessa maneira até agora?

Eles compreendem que a alma passou a vida fugindo de Havayah. E sabem disso porque “ela lhes contou”: sua própria trajetória e orientação durante a vida testemunham que sua mente e sua intenção permaneceram voltadas para essa fuga.

A doença continua avançando

“Que faremos contigo para que o mar se acalme?”

As forças do corpo perguntam:

Que tikun ainda podemos fazer para que sejamos curados e o decreto seja acalmado?

Mas:

“O mar ia ficando cada vez mais tempestuoso.”

Isto significa que a doença continua se agravando.

“Erguei-me e lançai-me ao mar”

Yonah responde:

“Erguei-me e lançai-me ao mar.”

O Gaon relaciona “erguer” à expressão de Bereshit 40:

“Faraó levantará tua cabeça de sobre ti.”

Nesse estágio, a neshamá, que havia descido até as pernas, precisa agora subir novamente pelo corpo até a garganta.

Portanto, o movimento de Yonah sendo erguido representa o movimento final da alma dentro do corpo durante sua retirada.

O corpo ficará sem a alma

Quando Yonah é lançado para fora do navio, isso representa a neshamá deixando o corpo.

O navio permanece sem Yonah; o corpo permanece sem sua alma.

Então:

“O mar se acalmará sobre vós.”

Isto significa que cessarão as aflições deste mundo.

“Por minha causa veio esta grande tempestade”

A alma reconhece que o Din chegou por causa daquilo que ocorreu durante sua vida.

O Gaon explica que a acusação da Midat HaDin [medida de julgamento] contra o corpo continua apenas enquanto dura a vida humana.

Por isso, nesse estágio, não existe para o corpo outra solução que impeça o processo já iniciado.

A última tentativa de retorno

“Os homens remaram para retornar à terra seca”

Os homens representam novamente todas as forças do corpo.

Agora elas tentam mudar de direção.

Querem retornar à “terra seca”, isto é, querem finalmente seguir o bom caminho, o caminho da Árvore da Vida.

Trata-se de uma tentativa de teshuvá no limite extremo da vida.

“Mas não puderam”

O Gaon explica de maneira severa:

Nesse ponto, a teshuvá já não consegue anular aquele decreto específico, porque o Gmar Din, a conclusão do julgamento, já ocorreu.

Ele relaciona isso a I Shemuel:

“Pois Havayah desejava fazê-los morrer.”

O ponto do comentário não é uma negação geral da teshuvá, mas a descrição de um estágio em que o decreto de morte já foi concluído.

“Não pereçamos com a nefesh deste homem”

As forças corporais clamam a Havayah para que não sejam destruídas juntamente com a neshamá.

E dizem:

“Não coloques sobre nós sangue inocente.”

O Gaon relaciona isso à responsabilidade do próprio homem por ter provocado o encurtamento de sua vida. A pessoa deverá prestar contas também por aquilo que fez contra sua própria existência.

“Tu, Havayah, fizeste conforme desejaste”

Aqui aparece uma discussão profunda sobre a responsabilidade da alma e a constituição do corpo.

A nefesh procede de um lugar santo e superior.

A matéria corporal, porém, pode possuir uma constituição naturalmente má, inclinada aos desejos.

As forças corporais, portanto, argumentam:

“De que somos culpadas? Tu criaste esta matéria conforme Tua vontade e a formaste de um lugar inferior e impuro.”

O Gaon vê aqui uma alusão à bênção tradicional das mulheres:

“Que me fez conforme Sua vontade.”

Nesse contexto alegórico específico, ele associa essa expressão à matéria corporal.

A morte

“Ergueram Yonah e lançaram-no ao mar”

Chega finalmente a separação.

A neshamá começa a retirar-se dos membros do corpo, membro após membro.

Esse processo culmina na separação completa entre alma e corpo.

Então:

“O mar cessou de sua fúria.”

A tempestade cessa porque o Din que estava agindo sobre aquele organismo durante o processo da morte chegou ao seu término.

O que acontece imediatamente depois

“Os homens temeram a Havayah com grande temor”

O Gaon descreve uma sequência.

Primeiro parte a neshamá.

Depois começam a retirar-se as demais forças.

Nesse momento aparece a referência ao canto do galo, que o Gaon relaciona ao Zohar e ao versículo de Yirmeyahu:

“Quem não Te temeria, ó Rei das nações?”

Quando chega o momento de a pessoa deixar este mundo, uma chama sai do lado norte, passa pelo Nahar Dinur e alcança as asas de um galo negro. Então o galo canta três vezes, e cada canto corresponde a uma etapa do julgamento e da morte.

À pessoa são apresentados todos os seus atos, e ela recebe sobre si o Din correspondente.

“Ofereceram sacrifícios e fizeram votos”

Finalmente:

“Ofereceram um sacrifício a Havayah e fizeram votos.”

O Gaon entende a própria aceitação do julgamento como possuindo o aspecto de uma oferta.

Ele remete novamente à passagem talmúdica e explica que a maneira do Santo, bendito seja Ele, não é como a maneira humana: mesmo quando um homem é condenado à morte, sua aceitação do Din pode adquirir o caráter de um korban, um sacrifício oferecido diante de Havayah.

Por isso ele relaciona o versículo:

“E a Ti será cumprido o voto.”

às palavras:

“E ofereceram um sacrifício.”

O quadro completo da alegoria

Todo o primeiro capítulo de Yonah transforma-se, assim, numa descrição da existência humana.

Yonah é a neshamá. Ela procede de um domínio superior e é enviada por Havayah para realizar um tikun.

Nínive é este mundo, a “grande cidade” que precisa ser reparada.

Tarshish representa os desejos, prazeres e riquezas deste mundo.

Yafo representa a descida ao domínio atraente aos sentidos.

O navio é o corpo.

O mar é este mundo, instável, cheio de ondas e sofrimentos.

A terra firme é o Olam HaBa e o Gan Eden.

Os marinheiros são o cérebro, o coração, os membros e as demais forças que dirigem o organismo.

O capitão é especificamente o coração.

A carga do navio são os bens e aquilo que o homem acumulou neste mundo, que no momento extremo já não pode salvá-lo e pode ser abandonado ou transformado em Tzedakah.

O grande vento é a Midat HaDin [Medida do Julgamento].

A tempestade manifesta-se no corpo como doença grave.

Lilit- Chaz veShalom aparece na descrição do mecanismo do Anjo da Morte: primeiro a sedução pelo pecado, depois a tomada da alma; a “espada de dois gumes” representa consequências neste mundo e no Mundo Vindouro.

Yonah descendo ao fundo do navio representa a neshamá descendo até as pernas quando começa sua retirada.

O sono profundo representa o estado que precede a morte.

A investigação dos marinheiros representa o exame dos pecados — língua, sexualidade e demais membros — diante do decreto.

Erguer Yonah representa a alma subindo novamente das partes inferiores do corpo em direção à garganta.

Lançá-lo para fora do navio representa a separação da neshamá do corpo.

A calmaria do mar representa o fim das aflições corporais desta vida.

E mesmo aí a história da alma não terminou. O corpo-navio foi quebrado, mas a neshamá não é necessariamente perdida. Desde o começo do comentário, o Gaon havia preparado a continuação: aquilo que ela não conseguiu reparar pode exigir gilgul, e a alma poderá ser enviada novamente para completar seu tikun.

Assim, a fuga de Yonah não é simplesmente, nessa interpretação, a história de um profeta tentando escapar de sua missão. É a história da alma que esqueceu por que veio ao mundo.

Ela veio da presença de Havayah, entrou no corpo para realizar um tikun, deveria governar suas forças e transformar o corpo para o bem, mas permitiu que o intelecto se submetesse aos desejos. No final da vida, quando o “mar” se torna tempestuoso, a alma é confrontada novamente com as perguntas fundamentais:

De onde vieste?
Qual é tua terra?
A que povo pertences?
Qual era tua tarefa?

E sua própria resposta contém todo o sentido da jornada:

“Ivri anochi — eu sou hebreu.”

Sua verdadeira origem está do outro lado, no domínio superior de onde foi talhada; sua tarefa é temer o Deus dos céus; e sua passagem pelo “mar” deste mundo deveria servir para preparar aquilo que levará consigo quando finalmente alcançar a terra firme - O mundo vindouro.


Shalom, Shalom!!!


quarta-feira, 1 de julho de 2026

Tzom Tammuz: O SEGREDO DO BEZERRO DE OURO



וַיִּקַּ֣ח מִיָּדָ֗ם וַיָּ֤צַר אֹתוֹ֙ בַּחֶ֔רֶט וַיַּֽעֲשֵׂ֖הוּ עֵ֣גֶל מַסֵּכָ֑ה וַיֹּ֣אמְר֔וּ אֵ֤לֶּה אֱלֹהֶ֨יךָ֙ יִשְׂרָאֵ֔ל אֲשֶׁ֥ר הֶֽעֱל֖וּךָ מֵאֶ֥רֶץ מִצְרָֽיִם

"Vayikach miyadam vaiotzer oto bacheret vaiaasehu egel massecha; vaiomru: "Eleh eloheicha Yisra'el asher heelucha me'eretz Mitzrayim"

"Ele (Aarão) tomou das mãos deles, formou (o ouro) com um cinzel e fez dele um bezerro de fundição; então eles disseram: ‘Este é o teu deus, ó Israel, que te tirou da terra do Egito.’" - Shemot 32:4


Shaar HaPessukim, Ki Tisa siman 32:

O assunto do Bezerro: É necessário saber qual era a intenção do Erev Rav ao fazer este Bezerro agora.

Já te informei no Pasuk "E levantou-se um novo rei sobre o Egito" [Shemot 1:8] a respeito do assunto de Balaão e do assunto do Erev Rav: como eles provêm das escórias (siguim) e da impureza da alma de Moshé Rabênu (que a paz esteja com ele) — cuja alma provinha do próprio Da'at de Zeir Anpin, a partir do aspecto dos Mochin de Abba (iluminações de Abba).

Contudo, ainda havia neles uma mistura de faíscas de santidade; por isso, Moshé se esforçou com todas as suas forças para trazer o Erev Rav para debaixo das asas da Shechiná. E assim também encontramos a respeito de Balaão, sobre quem nossos Sábios, de abençoada memória, disseram: "E nunca mais se levantou em Israel profeta como Moshé" [Devarim 34:10] — em Israel não se levantou, mas nas nações do mundo se levantou. E quem foi? Balaão.

Também te informei no Pasuk "E Rachel roubou os terafim que eram de seu pai" [Bereshit 31:19] que Labão, o Arameu, reencarnou em Balaão, filho de Beor, pois Beor era filho de Labão e pai de Balaão. Ora, toda aquela família provém de uma única e mesma raiz mencionada, que são as escórias da alma de Moshé Rabênu. E eles são: Labão, Beor, Balaão, e seus filhos Yanes e Yambres, mencionados ao final da parashá de Ki Tissa. Por isso, todos eles foram grandes magos e adivinhos, como nenhum outro igual a eles existiu no mundo.

E já te informei no Shaar HaGuilgulim, e também nas mitzvot de Birkat HaMazon na Parashat Ekev, sobre o assunto daqueles que reencarnam em todas as quatro categorias existenciais, que são: Domem (Inanimado), Tzomeach (Vegetal), Chai (Animal) e Medaber (Falante/Humano).

Também te informei lá que, para cada uma dessas categorias, há um tempo determinado para que eles se elevem dali para um nível superior. Eis que o tempo daqueles que reencarnaram no Tzomeach ocorre nos quatro primeiros meses [do calendário judaico], que são: Nissan, Iyar, Sivan e Tamuz. E eles se elevam e reencarnam na categoria de animal (Baal Chai).

Ora, a Nefesh de Beor, pai de Balaão, estava reencarnada no Tzomeach (vegetal), e ainda não tinha o mérito (tikun) para se elevar a Baal Chai [ao nível animal], devido à abundância da impureza do mal (zoamat hara) que havia nele. E, sem dúvida, ele representava o aspecto mais elevado de todas as escórias (siguim) que existiam naquela raiz espiritual. Por isso, Yanes e Yambres, seus netos — que eram os líderes do Erev Rav, como é sabido —, bem como o próprio Erev Rav, todos eles desejavam a retificação de Beor, pois com a elevação dele, haveria uma elevação para todos eles.

E eles olharam e compreenderam, por meio de seus encantamentos e adivinhações (kesamim), que ele não tinha a capacidade de se elevar dali a menos que fizessem Israel pecar. Através disso, a Klipá se fortaleceria e seria capaz de extrair a Nefesh de Beor, pai deles, do nível Tzomeach.

A isto somou-se o fato de que este pecado foi realizado por meio de Aharon HaKohen, o santo de Hashem. E somou-se também a isso o fato de estar nas mãos deles aquela lâmina (tas) de ouro na qual estava escrito: "Ale shor" (Sobe, boi).

Então, eles usaram de astúcia para fazer aquele Bezerro de ouro, que é chamado de Shor (boi), por meio das poderosas bruxarias de suas bocas — as quais enfraquecem o tribunal celeste. E uniram-se todas as ajudas mencionadas: a da Klipá e das bruxarias, a santidade do poder de Aharon, e o Nome Sagrado que estava naquela lâmina (com o qual haviam subido Yosef do rio Nilo).

Por meio disso tudo, saiu dali o boi de ouro, e dentro dele a espiritualidade e a força vital da Nefesh de Beor, pai deles. E ele subiu de Tzomeach [vegetal] para Chai [animal]. Então, eles o aceitaram sobre si como líder, para que ele lhes informasse o futuro e tudo o que precisassem. E tudo isso ocorreu por meio do fato de terem feito Israel pecar, conforme mencionado acima.

E a Néfesh do perverso Beor, que estava naquele boi, era quem gritava e dizia: "Estes são os teus deuses, ó Israel", conforme disseram nossos Sábios, de abençoada memória.

Também este é o segredo do que disseram nossos Sábios, de abençoada memória, que o alimentaram com ervas, como está escrito no Pasuk (Tehilim 106:20): "À semelhança de um boi que come erva". E o assunto é que, visto que ele estava reencarnado no Tzomeach (Vegetal) e nas ervas, ele comia delas para transferir dali o aspecto de sua Néfesh que estava lá reencarnada; e, por meio de sua alimentação delas, tornavam-se membros dos membros daquele boi vivo (Chai), e ele subia de Tzomeach para animal (Baal Chai). E tudo isso ocorria por meio do poder dos Kesamim deles. Por isso, fizeram este Bezerro no mês de Tamuz, que é o último mês do tempo da reencarnação e elevação do Tzomeach para o nível de Baal Chai.

וַיָּמִ֥ירוּ אֶת־כְּבוֹדָ֑ם    בְּתַבְנִ֥ית שׁ֝֗וֹר אֹכֵ֥ל עֵֽשֶׂב

עש"ב

Shaar HaGilgulim, haQadmá 22:

E eis que o assunto dos gilgulim foi explicado em muitos lugares, e como está mencionado no versículo: "Livra a minha Nefesh da espada, e da mão do cão a minha vida [literalmente minha Yechidá]" (Salmos 22:21). Os nossos Sábios (de abençoada memória) também aludiram a isso ao dizerem [Berachot 33a, veja também Pessachim 112b]: "[Se você vir] a cabeça de um touro [comendo] no cesto — suba ao teto e jogue a escada debaixo de você!", pois aquele que vê um touro preto nos dias de Nissan deve fugir dele e subir ao telhado, porque haSatan dança entre os seus chifres.

"O BOI BUMBA"

"BOI BOI BOI, BOI DA CARA PRETA, PEGA ESSE MENINO QUE TEM MEDO DE CARETA"

"FESTA DE SAN FERMIN"

(ESPANHA)

E o assunto é que o touro, que é Dina Kashia (julgamento duro), está mais pronto para que a Nefesh faça gilgul nele do que os demais animais; por isso deve-se fugir dele, o que não ocorre com as outras feras. Visto que estabelecemos anteriormente que não há tempo de ascensão do gilgul que está no Tzomach (vegetal) para o Chai (animal), exceto de Nissan em diante, por isso nos dias de Nissan — que é quando entra nele aquele gilgul do ímpio —, talvez por causa do acréscimo desse Ibur mau, ele cause dano a quem o encontrar. Porém, depois que o animal se acostuma com ela, já não causa dano; por isso não há preocupação exceto no primeiro mês de sua ascensão, que é o mês de Nissan, no qual o touro, ao comer a erva que é Tzomach, recebe o gilgul daquele ímpio que estava antes naquele Tzomach.

E já foi explicado por nós no Sha'ar HaPessukim no assunto de Yunus e Yumbrus, os filhos do ímpio Balaão, que eles fizeram o Bezerro no mês de Tamuz, e sobre ele foi dito: "na semelhança de um touro que come erva" (Tehilim 106:20).

OREV & ZEEV

YANES & YUMBRUS

REMO & ROMOLUS

ROMA

CRISTIANISMO

(Nota marginal: E em outro lugar encontrei escrito em nome do Maharchu [מהרח"ו ז"ל], de abençoada memória, que a palavra עשב [erva] serve como iniciais para שבעה עשר בתמוז [Dezessete de Tamuz]).


O TOURO DE BRONZE [de Wall Street]



Os EUA foram fundados em 4 de julho de 1776. No calendário hebraico, esse dia caiu exatamente em Shiva Assar be'Tammuz (שִׁבְעָה עָשָׂר בתַּמּוּז), o "Dezessete de Tammuz" do ano 5536 (תקל"ו) - Tzom Tamuz; o dia 17 de Tamuz é um dos dias mais negativos do ano qabalístico. Ele marca o início do período de luto de três semanas (Bein HaMetzarim) que culmina em Tisha b'Av (9 de Av). Historicamente, nesta data as duas Tábuas dos Dez Pronunciamentos - Aseret HaDibrot (עשרת הדיברות) cairam das mãos de Moisés e se quebraram, quando ele se deparou com o Éguel Zahav (Bezerro de Ouro), e séculos mais tarde os muros de Jerusalém foram rompidos pelos romanos antes da destruição do Segundo Templo.

Quando calculamos a gematria da data exata da fundação dos EUA escrito como "No 17 (dezessete) de Tamuz, em [5]536"


בי״ז בְּתַמּוּז בהתקל״ו
778

Através dos métodos de decodificação cabalística (como a Cifra Avgad Reverso), essa assinatura numérica revela conexões profundas com as forças arquetípicas de Gog u'Magog.


Shoah Atomit (Holocausto Nuclear)

שואה אטומית

778

Os EUA foram fundados sob o domínio de energias severas, no dia associado à um grande sistema de idolatria. E não são os EUA que dominam e ditam as regras do mundo inteiro?!

O TOURO DE BRONZE DE WALL STREET


Sempre que a pessoa corrompe a santidade de sua essência e entrega a sua alma aos domínios da Avodá Zará — seja acorrentando-se à ilusão da riqueza, à obsessão pelo controle ou à embriaguez do poder, seja mesmo depositando sua esperança e suas intenções em locais externos —, abre-se instantaneamente um abismo insondável em seu próprio ser. Esse vazio interior testemunha a dolorosa ruptura entre a centelha do homem e o seu relacionamento com o seu Criador, apartando a criatura do Fluxo de Luz da Fonte Suprema.

"Não terás outros deuses diante de Mim...", "Não farás para ti imagem de escultura, nem semelhança alguma..." (Êxodo 20)

O Criador é o Soberano Absoluto, a Raiz Única de onde emana e subsiste toda a existência. Sob essa luz, a essência da Avodá Zará desvela-se não apenas como o culto a um ídolo de pedra, mas como qualquer ato que curve o ser humano ao exílio de si mesmo, escravizando-o a um sistema de forças estranhas à realidade espiritual de sua alma.

O PECADO DO BEZERRO DE OURO


O Pecado do Bezerro foi um dos pecados mais graves em que o povo de Israel falhou. O pecado ocorreu no quadragésimo dia da subida de Moshe Rabbeinu ao Monte Sinai. Aqueles que falharam foram mortos por três tipos de execução. Como resultado desse pecado, as Tábuas da Lei foram quebradas e todo o povo de Israel foi punido com quarenta anos no deserto.

Este pecado se assemelha ao pecado da Árvore do Conhecimento, pois na entrega da Torá a impureza da serpente havia se afastado do povo de Israel e a morte havia sido anulada para eles; porém, após o Pecado do Bezerro, a impureza retornou e a morte lhes foi decretada como punição, assim como foi decretada para Adão HaRishon e sua descendência.

Depois que o povo de Israel saiu do Egito em 15 de Nissan, eles iniciaram uma jornada de cinquenta dias, alternando dias de viagem e de acampamento. No início do mês de Sivan, eles chegaram ao deserto do Sinai e acamparam no sopé do Monte Sinai, do lado oriental. No quinquagésimo pela manhã, a Divina Presença (Shechiná) desceu sobre o monte e o povo de Israel vivenciou o momento da Entrega da Torá, ouviram os Dez Pronunciamentos e suas almas voaram de seus corpos até que o Santo, Bendito Seja Ele, enviou-lhes o orvalho da ressurreição, com o qual Ele ressuscitará os mortos no futuro, e os reviveu. Depois disso, eles se voltaram a Moisés e pediram que ele servisse como intermediário entre eles e Deus, pois temiam a experiência de uma nova expiração da alma.

Na manhã seguinte, Moisés subiu ao Monte Sinai para receber mais detalhes sobre os mandamentos da Torá e para descer com as Tábuas da Lei. Antes de sua subida, Moisés anunciou que subiria por quarenta dias completos, após os quais desceria com as Tábuas.

Houve alguns dentre o povo de Israel, especialmente da "multidão misturada" (Erev Rav, os egípcios que se juntaram ao êxodo), que erraram e pensaram que o dia da subida de Moisés estava incluído na contagem, embora ele tivesse anunciado que se tratava de dias completos, que incluem "noite e dia". Essas pessoas esperaram por Moisés no dia 16 de Tamuz e, ao meio-dia, começaram a dizer que Moisés certamente havia morrido. Além disso, o Satã agiu para que o mundo parecesse "confuso" e mostrou-lhes uma visão em que anjos carregavam o caixão de Moisés, ou seja, que Moisés havia morrido e os anjos estavam realizando seu funeral.

Quando a Erev Rav viu isso, reuniram o povo ao redor de Aharon HaKohen, e pediram que ele lhes fizesse "outros deuses". O Rebe explica que, na verdade, eles queriam um substituto para Moisés e não para o Santo, Bendito Seja Ele, e como não se pode confiar em seres humanos e eles já sabiam que os servos de Hashem na Carruagem Celestial possuem a face de um boi, pediram um substituto semelhante.

Aarão, vendo que o povo estava muito entusiasmado e não podia ser adiado, pediu-lhes que trouxessem as joias de ouro das orelhas das mulheres e das crianças, a fim de atrasar a fabricação do bezerro. As mulheres recusaram-se a entregar seu ouro para a confecção do bezerro; por isso, os homens tiraram de si mesmos os brincos que tinham nas orelhas e os reuniram em um só lugar. Aarão atirou o ouro no fogo e os magos que estavam entre a multidão misturada moldaram a forma do bezerro por meio de feitiçaria. Segundo outra opinião, Mica pegou a placa de metal na qual Moisés havia escrito as palavras "Sobe, boi" para erguer o caixão de José do rio Nilo, jogou-a no fogo e imediatamente um bezerro de ouro saiu do fogo, com a capacidade de andar e comer.

A multidão misturada, vendo o sucesso, proclamou: "Estes são os teus deuses, ó Israel, que te tiraram da terra do Egito!".

Depois que o bezerro foi feito, Aarão quis adiar o povo de Israel um pouco mais e, por isso, proclamou: "Amanhã haverá uma festa para o Senhor". Aarão pretendia atrasá-los o máximo possível e, por isso, começou uma construção intencionalmente lenta do altar, na esperança de que Moisés descesse e os impedisse. Ele teve medo de contê-los diretamente após ver que haviam matado Hur, filho de Miriam, que os havia repreendido.

Na manhã seguinte, haSatan apressou o povo de Israel a acordar cedo, para que tivessem tempo de pecar antes que Moisés descesse do monte. O povo de Israel ofereceu sacrifícios, sentou-se para comer e festejou.

O dia em que Moisés realmente deveria descer era 17 de Tamuz. No mesmo momento em que Hashem entregava as Tábuas da Lei a Moisés, o povo de Israel começou a festejar com o bezerro. O Santo, Bendito Seja Ele, disse imediatamente a Moisés: "Vai, desce; porque o teu povo, que fizeste subir da terra do Egito, se corrompeu". Ou seja: "Toda a tua grandeza existe por causa do povo de Israel, e agora que eles pecaram por causa do povo que você subiu do Egito — a Erev Rav —, desça da tua grandeza".

Hashem queria exterminar todo o povo de Israel e criar uma nova nação a partir de Moisés, mas Moisés implorou ao Santo, Abençoado Seja Ele, que não o fizesse por duas razões:

O Faraó havia dito a Moisés para não ir ao deserto porque via a estrela da "maldade" (Ra'ah) subindo contra eles, e agora pareceria que o Faraó estava certo — de que quando o povo de Israel estivesse no deserto, a destruição viria sobre eles.

Em virtude dos Patriarcas, a quem o Santo, Abençoado Seja Ele, jurou que estabeleceria deles um povo que herdaria a Terra de Israel.

Hashem ouviu as palavras de Moisés e "arrependeu-se" da decisão de exterminar todo o povo de Israel.
[fonte: Chabadpédia]


17 BE'TAMUZ - As Cinco Rupturas Cósmicas da Data


A tradição rabínica estabelece cinco eventos históricos e catastróficos que motivaram a instituição do jejum público no dia 17 de Tamuz:

1. A Quebra das Tábuas da Lei
Após a outorga da Torá em Shavuot, Moshé subiu ao Monte Sinai no dia 7 de Sivan. Ele permaneceu lá por quarenta dias e quarenta noites para receber as Tábuas da Lei com os Dez Pronunciamentos. Esse período encerrou-se exatamente no dia 17 de Tamuz. Ao descer do monte e se deparar com o povo cometendo o Pecado do Bezerro de Ouro, as Letras da sustentação voaram de sobre as Tábus e elas cairam e se quebraram ao pé do monte.

2. A Cessação do Sacrifício Diário (Korban HaTamid)
O Korban HaTamid era o sacrifício diário realizado no Templo Sagrado, composto por dois cordeiros ofertados ininterruptamente — um pela manhã e outro ao entardecer. Durante o cerco a Jerusalém, as forças inimigas bloquearam o fornecimento dos animais necessários, forçando a interrupção definitiva deste serviço ritual no dia 17 de Tamuz.

3. O Rompimento das Muralhas de Jerusalém
Durante o período do Segundo Templo, o exército romano cercou Jerusalém. No dia 17 de Tamuz, as forças invasoras conseguiram romper as muralhas da cidade, o que culminou na invasão subsequente e na destruição do Santuário.

Nota Histórica: No Primeiro Templo, o rompimento das muralhas ocorreu originalmente no dia 9 de Tamuz. Contudo, os Sábios unificaram o jejum no dia 17 porque a destruição do Segundo Templo possui consequências mais severas e duradouras para o exílio atual. Paralelamente, o Talmud Jerusalém afirma que, mesmo na época do Primeiro Templo, o rompimento ocorreu no dia 17, mas o sofrimento e a confusão da população levaram a um erro no registro cronológico da data.

4. A Queima do Rolo da Torá
Um oficial romano chamado Apostomus queimou publicamente um rolo da Torá, em um ato de profanação e ataque direto à fé e à identidade judaica.

5. A Colocação de um Ídolo no Santuário
Uma imagem de idolatria foi introduzida no interior do Templo (Heichal).


A RETIFICAÇÃO MÍSTICA


No dia 16 de Tamuz, o povo fez surgir o Bezerro de Ouro. Naquele momento, Aharon HaKohen proclamou: "Amanhã haverá uma festa para o Senhor", referindo-se ao dia 17 de Tamuz. A intenção de Aharon era que Moshé retornasse a tempo de interceptar o culto ao Bezerro, transformando o dia seguinte em uma celebração ao Deus único através da anulação da idolatria. Embora o povo tenha se precipitado antes da descida de Moshé, a declaração de Aharon permanece como uma profecia para o futuro.

O AriZal (Rabino Isaac Luria) esclarece que há um segredo (Sod) nessas palavras: no futuro, Hashem reverterá o dia 17 de Tamuz em uma data de celebração, cumprindo a visão de Aharon. Na Torá, o termo "amanhã" frequentemente alude a um tempo futuro e messiânico.

A conversão do 17 de Tamuz em dia de festa atuará como a retificação (Tikun) definitiva para o Pecado do Bezerro. O erro do Bezerro consistiu em atribuir poder a uma existência separada da Unidade do Criador. Essa distorção será totalmente corrigida na Redenção Final, quando a Unidade Absoluta preencher a criação, elevando inclusive as faíscas de santidade capturadas pelas cascas mais densas da impureza.
[fonte: Chabadpédia]



SHALOM! RAZÁ ILAÁ!

O Artesão Da Luz