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sábado, 7 de novembro de 2026

A DESCOBERTA DO COMPUTADOR NO GÊNESIS

A DESCOBERTA DA PALAVRA “COMPUTADOR” EM BERESHIT 7:11 E SUA RELAÇÃO COM A PROFECIA DO ZOHAR

Por Rav Misha’Ël Ha’Levi

Em 7 de novembro de 2026, durante minhas investigações sobre os códigos ocultos na Torah, realizei uma descoberta particularmente interessante no versículo de Bereshit 7:11, justamente aquele citado pelo Zohar, na Parashat Vayera (I, 117a), ao anunciar a abertura dos portões da sabedoria celestial e das fontes da sabedoria inferior no sexto milênio.

O Zohar declara:

“E no sexcentésimo ano do sexto milênio, abrir-se-ão os portões da sabedoria acima e as fontes da sabedoria abaixo, e o mundo será preparado para entrar no sétimo, assim como um homem se prepara no sexto dia, quando o sol começa a se pôr, para entrar no Shabbat.”

Essa passagem refere-se ao ano hebraico 5600, correspondente a 1839–1840 da era comum, período que, de maneira extraordinariamente interessante, coincide com uma fase decisiva do desenvolvimento científico e tecnológico da humanidade.

O próprio Zohar fundamenta essa revelação em Bereshit 7:11:

“No ano seiscentos da vida de Noach, no segundo mês, aos dezessete dias do mês, naquele dia romperam-se todas as fontes do grande abismo, e as comportas dos céus se abriram.”

Ao investigar esse versículo mediante o método de Equidistant Letter Sequences (ELS), conhecido na tradição dos estudos cabalísticos como Dilug Otiot, identifiquei uma sequência relacionada à palavra hebraica מחשב (Machshev), que significa “computador”.

A sequência foi encontrada mediante um intervalo constante de seis letras (ELS 6), em sentido inverso ao da leitura do versículo. Nesse procedimento, seleciona-se uma letra, contam-se cinco letras intermediárias e toma-se a sexta, repetindo-se sucessivamente o mesmo intervalo.

A sequência encontrada é:

ם ← ח ← ש ← ב

Lida inversamente, e considerando a equivalência consonantal entre Mem Sofit (ם) e Mem (מ), ela corresponde a:

מחשב — Machshev — Computador.

O aspecto que considero mais significativo dessa descoberta é sua localização: a sequência aparece justamente no versículo escolhido pelo Zohar para ilustrar a abertura das fontes da sabedoria no ano 5600.

Existe ainda uma interessante correspondência histórica. Em 1837, o matemático britânico Charles Babbage desenvolveu o projeto de sua Máquina Analítica, considerada uma das precursoras conceituais do computador moderno. Isso ocorreu apenas alguns anos antes do início do ano hebraico 5600.

Assim, encontramos três elementos que merecem ser considerados conjuntamente: a passagem do Zohar sobre a abertura das fontes da sabedoria inferior, a proximidade histórica entre o ano 5600 e o desenvolvimento da Máquina Analítica de Babbage, e a presença da sequência consonantal associada à palavra מחשב no versículo utilizado pelo próprio Zohar.

Não afirmo que essa correspondência constitua, por si só, uma demonstração matemática de uma previsão tecnológica. Entretanto, considero que ela apresenta uma associação simbólica e cabalística digna de investigação, sobretudo quando examinada no contexto da tradição zohárica sobre a revelação progressiva da Chochmah no mundo.

Afinal, é particularmente sugestivo que a palavra hebraica moderna para computador possa ser extraída, mediante Dilug Otiot, precisamente do versículo que o Zohar relaciona à abertura das fontes da sabedoria inferior.

בִּשְׁנַ֨ת שֵׁשׁ־מֵא֤וֹת שָׁנָה֙ לְחַיֵּי־נֹ֔חַ בַּחֹ֨דֶשׁ֙ הַשֵּׁנִ֔י בְּשִׁבְעָֽה־עָשָׂ֥ר י֖וֹם לַחֹ֑דֶשׁ בַּיּ֣וֹם הַזֶּ֗ה נִבְקְעוּ֙ כָּֽל־מַעְיְנֹת֙ תְּה֣וֹם רַבָּ֔ה וַֽאֲרֻבֹּ֥ת הַשָּׁמַ֖יִם נִפְתָּֽחוּ׃

Rav Misha’Ël Ha’Levi
Investigação dos Códigos da Torah 
7 de novembro de 2026


sexta-feira, 30 de outubro de 2026

"The Inner Light" - A realidade como um sonho

Tehilim 126:1  שִׁיר הַמַּעֲלוֹת, בְּשׁוּב ה׳ אֶת־שִׁיבַת צִיּוֹן, הָיִינוּ כְּחֹלְמִים׃

Shir haMa'alot, beshuv Hashem et shivat Tzion, hayinu kecholmim.

“Cântico das ascensões. Quando Hashem trouxe de volta os cativos de Tzion, éramos como aqueles que sonham.”

Zohar Emor Daf (folha) 89b: "há setenta anos no sonho (...) Certamente há setenta anos no sonho."


Se você pudesse viver uma vida inteira em poucos minutos e, ao despertar, conservasse todas as lembranças, os amores e as perdas daquela existência, qual das duas vidas seria a sua verdadeira vida?

“The Inner Light” (A Luz Interior) é o episódio 25 da quinta temporada de Star Trek: The Next Generation, exibido originalmente em 1992. É um dos episódios mais emocionantes da série. A história começa quando a Enterprise encontra uma antiga sonda espacial desconhecida. Um feixe de energia atinge o capitão Picard, que imediatamente perde a consciência. Quando desperta, ele não está mais na Enterprise: encontra-se em um planeta chamado Kataan, vivendo como um homem chamado Kamin.

🚨

CONTÉM SPOILER:

Aos poucos, Picard deixa de lutar contra aquela realidade e passa a viver como Kamin. Ele se casa com Eline, tem filhos, faz amizades, envelhece e aprende a tocar flauta. Constrói uma vida comum, mas profundamente significativa. Durante essa existência, Kamin desenvolve interesse pela natureza e pela astronomia. Observa o céu com um telescópio e percebe que o planeta está sofrendo uma seca cada vez mais grave. A radiação de sua estrela está aumentando, e ele tenta alertar as autoridades de que Kataan está condenado. Com o passar dos anos, ele descobre uma verdade devastadora: os habitantes já sabem que o planeta será destruído, mas não possuem tecnologia para evacuar sua população. Eline e seu amigo Batai envelhecem e morrem. Seus filhos crescem, e Kamin chega à velhice.

Então vem a revelação. Um dia, seus familiares o levam para assistir ao lançamento de um foguete. Ele descobre que aquele lançamento está relacionado à sonda que encontrou a Enterprise. Os habitantes de Kataan, sabendo que sua civilização desapareceria, haviam colocado as memórias de seu povo em uma sonda e a enviado ao espaço. A missão era encontrar alguém no futuro que pudesse conhecer sua existência e contar sua história. Picard compreende que toda aquela vida que experimentou era a memória de Kamin, um homem daquele planeta desaparecido. Ele havia se tornado o guardião da memória de uma civilização inteira. De repente, desperta na ponte da Enterprise. Para a tripulação, haviam passado apenas 25 minutos. Para Picard, haviam transcorrido décadas de uma vida inteira.

Quando a tripulação recupera a sonda, encontra dentro dela uma pequena caixa contendo a flauta de Kamin. Picard pega o instrumento e toca uma melodia que aprendeu durante aquela vida. É uma das cenas mais bonitas da série: a vida de Kamin terminou há mil anos, mas sua memória continua viva em Picard.

🚨

FIM DO SPOILER

Nós temos pelo menos duas dimensões de interpretação para trabalhar neste episódio. Vamos a elas:


A ETERNIDADE EM UM INSTANTE

 Veja Likutey Moharan — Segunda Parte, Ensinamento 61:

O Santo, bendito seja, está acima do tempo, como é mencionado. E este assunto é, verdadeiramente, algo extraordinário e profundamente oculto, sendo impossível compreendê-lo por meio do intelecto humano.

Entretanto, saiba que a própria existência do tempo decorre unicamente da falta de compreensão, isto é, do fato de nosso intelecto ser pequeno. Pois, quanto maior é o intelecto, menor se torna o tempo, até que este acaba sendo completamente anulado.

Isso pode ser observado no sonho, quando o intelecto se retira e a pessoa dispõe apenas da faculdade da imaginação (Koach haMedamê). Nesse estado, em apenas quinze minutos, é possível atravessar setenta anos, conforme acontece nos sonhos, nos quais parece que muitos e muitos períodos de tempo transcorrem em um intervalo extremamente curto. Depois, quando a pessoa desperta do sono, percebe que todos aqueles períodos de tempo, aqueles setenta anos que transcorreram no sonho, na realidade, corresponderam a um intervalo muito pequeno.

Isso acontece porque, ao despertar, o intelecto retorna à pessoa. E, diante do intelecto, todos aqueles setenta anos que transcorreram no sonho não passam de quinze minutos. Entretanto, setenta anos propriamente ditos continuam sendo setenta anos também para o nosso intelecto. Na verdade, diante de um intelecto superior ao nosso, até mesmo aquilo que consideramos setenta anos completos corresponde somente a quinze minutos, ou menos ainda. Pois, assim como vemos que é possível atravessar setenta anos em um sonho e, posteriormente, compreendemos, por meio de nosso próprio intelecto, que tudo isso correspondeu apenas a quinze minutos, exatamente da mesma maneira, aquilo que, segundo o nosso intelecto, representa setenta anos completos, diante de um intelecto superior ao nosso representa apenas quinze minutos.

Apenas não conseguimos compreender isso.

Pois, mesmo durante o sonho, se alguém se aproximasse da pessoa enquanto ela estivesse sonhando e lhe dissesse que tudo aquilo que lhe parece estar acontecendo durante dias e anos, na realidade, não corresponde a nada disso, e que tudo não passa de quinze minutos, certamente ela não acreditaria de maneira alguma. Isso porque, segundo a imaginação que atua no sonho, parece-lhe que dias e anos inteiros estão efetivamente transcorrendo.

Da mesma maneira, embora, segundo o nosso intelecto, pareça que determinado período corresponde a setenta anos, diante de um intelecto muito maior, esse mesmo período [pode] representar apenas quinze minutos.

E assim acontece sucessivamente, em níveis cada vez mais elevados: diante de um intelecto ainda mais elevado, o período que, para o intelecto superior ao nosso, corresponde a quinze minutos, também não é considerado senão um intervalo muito pequeno, ainda menor. E assim prossegue, em níveis cada vez mais elevados, até que existe um intelecto tão elevado que, diante dele, todo o tempo deixa completamente de ser considerado.

Isso acontece porque, em razão da imensidão desse intelecto, todo o tempo se torna absolutamente inexistente e deixa de ter qualquer valor. Assim como, para nós, os setenta anos que transcorrem em um sonho correspondem, na realidade, apenas a quinze minutos, conforme mencionado anteriormente, da mesma maneira existe um intelecto acima de outro intelecto, até que o tempo seja completamente anulado.

Por isso, a respeito do Mashiach, sobre quem passaram todas as coisas que passaram desde o dia da Criação do mundo, e que suportou todos os sofrimentos que suportou, depois de tudo isso, no final, o Santo, bendito seja, lhe dirá: «Meu filho és tu; hoje Eu te gerei» (Tehilim 2:7). Em hebraico: Bení atá, ani hayom yelidticha.

[Observe que é dito "hoje", "hoje Eu te gerei"]

Isso é algo extremamente surpreendente e extraordinário, aparentemente. Entretanto, tudo isso acontece em razão da grandeza e da essência do intelecto do Mashiach, de acordo com o elevado nível que ele alcançará naquele momento. E, devido à extraordinária grandeza da excelência de seu intelecto, que crescerá então imensamente, todo o tempo que transcorreu sobre ele desde o dia da Criação do mundo até aquele momento será, literalmente, considerado como nada e inexistente.

Será exatamente como se ele tivesse nascido naquele próprio dia, pois todo o tempo será anulado dentro de seu intelecto, que será extraordinariamente elevado.

[Ou seja, ainda que se tenham passado seis mil anos, para o Mashiach esse periodo de tempo nada é]

Por isso, o Santo, bendito seja, lhe dirá: «Hoje Eu te gerei», literalmente hoje, pois todo o tempo que passou será completamente inexistente, conforme explicado anteriormente.

Da mesma maneira, também podemos observar isso em relação ao espaço. Uma pessoa dotada de grande força consegue atravessar um espaço muito extenso em um intervalo de tempo muito curto. Portanto, para ela, todo aquele espaço é pequeno, enquanto para as pessoas de pouca força, esse mesmo espaço é considerado extenso, sendo necessário caminhar durante muito tempo até atravessá-lo. E, da mesma maneira, em níveis cada vez mais elevados, quanto maior for a força [espiritual] , menor será o espaço para aquele que a possui.

E assim prossegue, em níveis cada vez mais elevados, até que o espaço seja completamente anulado. Entretanto, com o nosso intelecto [atual], é impossível compreender tudo isso.

Assim como é impossível compreender, durante o sonho, a verdade de que todo aquele período de tempo que parece transcorrer no sonho, na realidade, não corresponde a nada daquilo que imaginamos, da mesma maneira, também nos é impossível compreender que todo o nosso tempo não representa absolutamente nada diante do intelecto superior, conforme explicado anteriormente. - fim do comentário.

Ora, o que uma Consciência Expandida através das correções que a alma adquire, pode experimentar quando se eleva? O Tzemach Tzedek responde no Derech Mitzvotecha:

Na verdade, todos os prazeres e desejos deste mundo são como nada. Mesmo que alguém pudesse viver mil anos em tranquilidade, sossego e segurança, e fosse o rei dos reis, sem lhe faltar nenhum dos prazeres existentes no mundo, tudo isso realmente não poderia ser comparado, em medida alguma, à intensidade do prazer Divino de uma única hora, mesmo nos graus mais inferiores dos mundos espirituais.

Isso significa o que nossos Sábios, de abençoada memória, disseram: “É melhor uma hora de satisfação no Mundo Vindouro do que toda a vida deste mundo” (Mishnah, Avot 4:17).

Isso se refere até mesmo a uma única hora [que a alma passa] no Gan Eden inferior; quanto mais no Gan Eden superior, ao qual o Gan Eden inferior não pode ser comparado de maneira alguma. Tanto é assim que, quando a alma ascende do Gan Eden inferior ao Gan Eden superior, ela precisa mergulhar no Nahar Dinur, a fim de esquecer o prazer do Gan Eden inferior, para que esse prazer não a confunda no Gan Eden superior.

Da mesma maneira, aquele que ascende deste mundo ao Gan Eden inferior precisa primeiro esquecer a visão deste mundo, conforme é sabido pelo Zohar, pois ela é literalmente como um pensamento estranho que causa distração etc. Portanto, qualquer pessoa que reflita sobre isso poderá imaginar a imensa superioridade do prazer do Gan Eden superior.

E existem ainda muitos outros graus, cada um acima do outro. Embora nos livros sejam mencionados apenas esses dois aspectos, na verdade, sabemos, por intermédio dos escritos dos santos sábios das gerações anteriores, para os quais os caminhos dos céus eram luminosos, que existem graus sem fim, cada um infinitamente mais elevado do que aquele que está abaixo dele. - fim do comentário.

O tema central desses ensinamentos é que nossa percepção do tempo e da realidade depende do grau de desenvolvimento do intelecto e da consciência espiritual. Aquilo que consideramos longo, grandioso e significativo pode se tornar insignificante quando contemplado a partir de um nível de percepção infinitamente superior.

Em apenas quinze minutos de sono, por exemplo, uma pessoa pode experimentar acontecimentos que, dentro do sonho, parecem durar setenta anos [pois setenta anos equivalem a toda a vida de uma pessoa]. Desta forma também é quando ela ascende sua alma através de níveis espirituais cada vez mais altos. Embora o Mashiach tenha atravessado todos os acontecimentos e sofrimentos ocorridos desde a Criação do mundo até o tempo do fim, ele possui um grau de intelecto e correção espiritual tão elevados que todo esse período é como absolutamente nada diante dele. Por isso, Hashem lhe dirá: “Hoje Eu te gerei”. É como se todos os milhares de anos transcorridos fossem reduzidos a um único instante. Pois os Graus Espirituais se dividem em escalas: a Malchut - corresponde às unidades, Zeir Anpin às dezenas, Biná às centenas, Chochmá às milhares e o Keter às dezenas de milhares... 

IBUR: UMA VIDA DENTRO DE OUTRA VIDA

O episódio “The Inner Light”, de Star Trek: The Next Generation, apresenta uma situação extraordinária: o capitão Jean-Luc Picard é atingido por uma sonda e passa a experimentar uma existência inteira como Kamin, um habitante de um planeta que já desapareceu. Durante aquela experiência, ele vive décadas, constitui família, envelhece, desenvolve conhecimentos e aprende a tocar flauta. Quando desperta, descobre que, para seus companheiros da Enterprise, transcorreram apenas alguns minutos.

A experiência de Picard pode servir como uma metáfora para introduzir alguns conceitos de Sha'ar HaGilgulim, especialmente a pluralidade de centelhas da alma, a relação entre diferentes partes de uma raiz de alma e o fenômeno denominado Ibur (עיבור).

O ponto principal é que a alma não se trata de uma unidade simples e indivisível, conforme aparece em outras doutrinas.

Em Sha'ar HaGilgulim, o Arizal explica que as almas possuem raízes e subdivisões. Uma raiz de alma pode conter numerosas centelhas, chamadas Nitzotzot (ניצוצות). Seriam todos os habitantes daquele planeta centelhas de almas que estavam inclusas na raiz espiritual de Picard?

Na Hakdamá 2, ao tratar da queda das centelhas da alma de Adam HaRishon, o Arizal compara a estrutura da alma à estrutura do corpo humano: assim como o corpo possui muitos membros e cada membro contém partes menores, também a alma possui numerosas centelhas e subdivisões e todas elas são chamadas de "membros de uma cidade", a cidade é a própria pessoa.

O ensinamento explica que, ao longo das gerações, diferentes centelhas dessas raízes chegam ao mundo por meio do Gilgul, para serem retificadas. Isso significa que, quando os textos cabalísticos dizem que determinada pessoa veio de uma raiz de alma associada a outra pessoa, não devemos imaginar necessariamente que toda a alma daquela pessoa anterior esteja presente de maneira integral e exclusiva no novo indivíduo. Pode tratar-se de uma centelha específica daquela raiz.

Ora, vemos que uma mesma raiz pode conter muitas centelhas, e que diferentes centelhas podem ser retificadas em diferentes gilgulim [ciclos] e até mesmo por meio de Yburim [impregnações]. A vida de Kamin representa, simbolicamente, uma existência que se torna presente dentro da experiência de outra pessoa. Picard passa a carregar a experiência de uma vida que não começou com ele mesmo, mas que veio de um processo de gilgul e Ibur por cerca de mil anos antes que ele viesse a existir. E ele é obviamente o responsável pela correção de todas aquelas centelhas, como era o caso de Nadav e Avihu onde todas as centelhas da Raiz de Kayin estavam anexadas neles por meio do Tzelem [imagem sobre eles] na forma de sua Ohr Maquif [Luz circundante].

Na Hakdamá 5, o Arizal distingue claramente Gilgul e Ibur. Gilgul (גלגול) é a entrada de uma alma em um novo corpo desde o nascimento. Já o Ibur (עיבור) é diferente: a alma adicional não precisa estar presente desde o nascimento [embora haja casos em que muitos Iburim acompanham a pessoa desde o ventre]. Ela pode entrar na pessoa posteriormente, durante sua vida.

A experiência de Picard com Kamin começa em determinado momento, quando a sonda o atinge, contudo a experiência de Kamin é bem anterior. Há entre eles alguma semelhança de forma e por isso essa impregnação é possível. Ora, podemos pensar que lá no passado, Kamin recebeu ou carregava a consciência de Picard e então no futuro, Picard recebeu a consciência de Kamin, este é o segredo do Ibur (עיבור): a possibilidade de uma alma se integrar temporariamente à existência de outra quando existe uma correspondência entre elas, ou se trata de um gilgul de uma mesma alma-raiz em diferentes centelhas efetuando correções [tikkunim] ao longo do tempo. E por isso Picard sabe tocar a flauta que Kamin possuia, pois isso é um atributo de sua alma.


Autora
Rhéah Ruth Peniná
Rebtzin


terça-feira, 29 de setembro de 2026

O LIVRO DE JONAS por Vilna Gaon



O Gaon de Vilna lê o Livro de Yonah em um nível inteiramente alegórico: Yonah representa a neshamá, a alma humana, enviada por Havayah a este mundo com uma missão específica. A história do profeta que recebe uma ordem, foge, entra num navio, enfrenta uma tempestade e finalmente é lançado ao mar descreve, nessa leitura, a trajetória da alma desde sua origem superior até sua entrada no corpo, sua corrupção pelos desejos deste mundo, a aproximação da morte e sua separação do corpo.

A missão original da alma

A alma é enviada a este mundo para realizar um tikun, uma reparação. Esse tikun possui duas dimensões: cada pessoa deve realizar seu próprio tikun e, ao mesmo tempo, participar do tikun do mundo inteiro.

Porém, no caso descrito pela história de Yonah, a alma não somente deixa de cumprir aquilo para que foi enviada, como acaba corrompendo a si mesma. Por essa razão, depois de sua primeira passagem pelo mundo, ela precisará retornar em um segundo gilgul, uma nova encarnação, para completar aquilo que deixou de fazer.

Nesse segundo gilgul ela efetivamente realizará seu tikun, mas enfrentará sofrimentos, relacionados à adversidade de seu mazal. Assim, já no início do comentário, o Gaon estabelece que a história de Yonah descreve tanto o fracasso de uma primeira descida da alma quanto sua posterior possibilidade de reparação.

“E veio a palavra de Havayah a Yonah”

Quando o texto diz:

“E veio a palavra de Havayah a Yonah”,

isso representa Havayah enviando a alma ao mundo e dizendo-lhe, em essência:

“Entra no corpo de determinada pessoa e realiza Minha vontade.”

Portanto, o envio profético de Yonah corresponde ao envio da alma para dentro de um corpo específico.

O próprio nome Yonah, “pomba”, representa a alma.

O Gaon apresenta várias razões para essa identificação.

Primeiro, apoiando-se no Zohar, associa a alma à expressão “pomba ingênua, sem entendimento”.

Depois lembra a passagem de Shabat 49 sobre a maneira como as asas da pomba a protegem.

Há ainda outra característica: a pomba não abandona seu companheiro. Isso se relaciona ao Shir HaShirim:

“Minha pomba, minha perfeita.”

Finalmente, a pomba se deixa levar ao abate sem lutar. Isso é relacionado ao versículo:

“Por Tua causa somos mortos o dia inteiro.”

O Gaon também menciona um Midrash que descreve alguém sofrendo por permanecer fiel às mitzvot, inclusive à circuncisão de seu filho.

Por essas razões, a alma recebe o nome Yonah, “pomba”, tanto no primeiro quanto no segundo gilgul, quer sua situação seja favorável, quer seja desfavorável.

“Yonah ben Amitai”

Ben Amitai, “filho de Amitai”, também é interpretado alegoricamente.

A alma é “filha” do Santo, bendito seja Ele, pois está escrito:

“Filhos sois de Havayah, vosso Elohim.”

O Zohar explica que, assim como existe um pai para o corpo, existe um Pai da alma.

Além disso, Amitai é associado a Emet, Verdade, porque o selo do Santo, bendito seja Ele, é Emet.

O Gaon menciona também Yoma 57, onde Rabbi Yitzchak explica que os Sábios sabiam que o Santo, bendito seja Ele, é verdadeiro e, justamente por isso, não mentiriam diante Dele.

Assim, “Yonah ben Amitai” passa a significar alegoricamente: a alma que procede do Deus verdadeiro.

“Dizendo”

A palavra “dizendo” indica que aquilo que Havayah ensina à alma deve ser transmitido.

O conteúdo fundamental dessa mensagem é que os seres humanos precisam saber por que vieram a este mundo.

A resposta do Gaon é explícita: cada pessoa veio para realizar seu próprio tikun e o tikun do mundo inteiro.

“Levanta-te e vai”

“Levanta-te” significa:

Sai do lugar onde permanecias, no Gan Eden.

“Vai” significa:

Desce ao mundo material.

A viagem de Yonah, portanto, começa como a própria descida da alma do Gan Eden para este mundo.

Nínive é este mundo

Nínive representa este mundo.

O Gaon relaciona Nínive à ideia da morada de Havayah. Este mundo é o “escabelo de Seus pés” e, paradoxalmente, é justamente aqui que o ser humano precisa trabalhar para reparar a morada divina.

Por isso a alma não foi enviada ao mundo por acidente. Este mundo é precisamente o lugar de seu trabalho.

“A grande cidade”

O ser humano é tradicionalmente chamado de pequeno mundo e também de pequena cidade.

Se o homem é a pequena cidade, então o mundo inteiro é a:

“grande cidade”.

Assim, quando Yonah é enviado à grande cidade, a alma está sendo enviada ao grande mundo no qual deverá realizar seu tikun.

“Proclama contra ela”

A alma deve ensinar conhecimento ao ser humano para que ele abandone seu mau caminho.

Portanto, a missão de Yonah de advertir Nínive representa a função espiritual da alma dentro do homem: chamá-lo à teshuvá e conduzi-lo ao tikun.

“Pois sua maldade subiu diante de Mim”

Os pecados não são apresentados apenas como atos passados. Segundo o comentário, eles produzem mekatregim, acusadores espirituais.

Esses acusadores permanecem diante do Tribunal celestial, clamando contra a pessoa.

O Gaon relaciona isso à impureza do Mikdash e ao versículo:

“O fim de toda carne veio diante de Mim.”

Ele remete aqui ao Zohar, Parashat Vayechi.

A fuga da alma

“Yonah levantou-se para fugir”

A fuga de Yonah representa a alma que, em vez de cumprir sua missão, foge de Havayah.

É justamente por isso que o retorno espiritual recebe o nome Teshuvá, literalmente “retorno”.

O Ba'al Teshuvá é aquele que deixa de fugir e retorna:

“Retornai a Mim...”

Tarshish: os desejos e as riquezas deste mundo

Yonah foge para Tarshish.

Para o Gaon, Tarshish representa a busca pelos prazeres, desejos e riquezas deste mundo.

Ele apoia essa interpretação em Yechezkel 27, onde Tarshish aparece relacionada ao comércio, à abundância, à prata e ao ouro.

Assim, fugir para Tarshish significa abandonar o objetivo espiritual para perseguir satisfação material, riqueza e desejo corporal.

“Da presença de Havayah”

Antes de entrar neste mundo, a alma encontra-se diante de Havayah.

O Gaon cita a expressão:

“Vive Havayah, diante de quem estive.”

Se a pessoa serve corretamente a Havayah, depois desta vida sua alma retorna ao Olam HaBa e novamente permanece diante Dele.

Mas durante sua vida terrena, quando se entrega aos desejos, ela está simbolicamente fugindo da presença divina, assim como está escrito sobre Kayin:

“E Kayin saiu da presença de Havayah.”

A descida ao corpo

“E desceu a Yafo”

Yafo representa a descida da alma ao mundo corporal.

O nome é associado à ideia de beleza, e a beleza exterior está relacionada aos desejos corporais — como na expressão:

“Bela de aparência.”

O Gaon também relaciona isso à Árvore do Conhecimento e à expressão:

“Desejável aos olhos.”

Portanto, Yafo representa o domínio no qual aquilo que é atraente aos sentidos exerce força sobre o ser humano.

O navio é o corpo

Yonah encontra um navio.

Esse navio representa o corpo humano.

O Gaon relaciona a palavra a expressões de lamento e sofrimento, porque a existência corporal neste mundo está ligada a trabalho, dor e aflição:

“Todos os seus dias são dores e sofrimentos.”

E:

“O homem nasce para o trabalho.”

Aqui surge uma das principais imagens de todo o comentário:

o mundo presente é o mar;
o corpo é o navio;
a alma é o viajante;
o Olam HaBa e o Gan Eden são a terra firme.

Quem entra num navio não pretende estabelecer residência permanente no oceano. Desce ao mar para obter mercadorias que posteriormente levará para terra firme.

Da mesma maneira, a alma entra neste mundo para adquirir aqui aquilo que levará consigo para o Olam HaBa.

As dificuldades da vida são, portanto, as ondas do mar:

“Todas as Tuas vagas e Tuas ondas...”

e:

“As águas me cercaram...”

O corpo é o veículo que permite à alma navegar neste “mar”. Por meio dele ela entra neste mundo e, depois, deve chegar à “terra firme”, o Olam HaBa.

A relação entre alma e corpo

O Gaon introduz então uma imagem importante: a alma é como o marido do corpo.

Ele remete ao Midrash HaNe'elam sobre Avraham e Sarah.

Nesse simbolismo, a qualidade do corpo com o qual a alma se associa é decisiva.

A Eshet Chayil, a “mulher virtuosa” de Mishlei, representa um corpo cuja constituição está preparada para o serviço de Elohim.

Por isso:

“Quem encontrou uma mulher encontrou o bem.”

Em contraste, a “mulher má” representa uma constituição corporal inclinada ao mal.

A alma pode, portanto, encontrar uma matéria corporal que coopera com sua missão ou uma matéria corporal naturalmente inclinada aos desejos deste mundo.

“E pagou sua passagem”

O pagamento da passagem significa que a alma submete seu intelecto às forças corporais.

Em vez de governar o corpo, começa a empregar suas capacidades para satisfazer os desejos dele.

O “salário” recebido pelo corpo é o prazer obtido através do pecado.

O Gaon remete aqui a Chovot HaLevavot e ao ensinamento:

“O ganho de uma transgressão deve ser considerado diante de sua perda.”

Ele explica também a tradição segundo a qual Yonah teria pago o preço de todo o navio: isso significa que, quando ocorre a transgressão, todos os membros do corpo participam de seu prazer.

É nesse contexto que aparece:

“A sabedoria do pobre é desprezada.”

Os membros não querem obedecer ao Yetzer Tov, porque o Yetzer HaRa oferece satisfação imediata:

“Alegra-te, jovem, em tua juventude...”

Isto é: desfruta agora.

O Yetzer Tov, ao contrário, adverte:

“Mas sabe que por todas estas coisas...”

Isto é, lembra que haverá julgamento.

Esse prazer obtido através do pecado é chamado pelo Gaon de “pagamento de uma prostituta”, relacionando-o à mulher sedutora de Mishlei.

“E desceu nele”

A entrada de Yonah no navio significa que a alma entrou no corpo.

Para a alma, isso é uma descida imensa:

“De um teto elevado para um poço profundo.”

O corpo é também a “pequena cidade”. Dentro dessa cidade encontram-se seus “habitantes”: as diversas forças corporais — nutrição, crescimento, desejo, movimento e as demais faculdades — juntamente com todos os membros.

Quando essas forças passam a perseguir Tarshish, todo o organismo se orienta para os desejos deste mundo, afastando-se da presença de Havayah.

O Din começa a agir

“E Havayah lançou um grande vento”

A expressão “Havayah” é entendida aqui como:

Ele e Seu Beit Din, isto é, Havayah juntamente com Seu Tribunal.

O “grande vento” representa a Midat HaDin, o Atributo do Julgamento.

Esse Din acusa constantemente o homem diante do Tribunal celestial. Quando chega o momento em que o homem é entregue ao seu domínio, o agente do Din desce para tomar sua alma.

Ele é chamado de “grande” porque o Gaon associa a grandeza, nesse contexto, à Kelipah.

Esav é chamado de filho “grande”, enquanto Yaakov é chamado “pequeno”. Os Tzadikim também são relacionados à pequenez, porque a Kedushah se faz pequena, ideia que o Gaon relaciona ao Zohar.

Surge então uma identificação mais específica: a espada do Anjo da Morte é Lilit-Chaz veShalom!.

Primeiro ela seduz o homem; posteriormente, toma sua alma.

A “gota de fel” suspensa na espada do Anjo da Morte também é identificada com ela. O Gaon relaciona isso a Mishlei:

“Os lábios da mulher estrangeira destilam mel... mas seu fim é amargo como o absinto, afiado como uma espada de dois gumes.”

Os dois gumes significam que a consequência do pecado atinge o homem em dois mundos: neste mundo e no Mundo Vindouro.

O mar e a terra firme

O mar continua representando este mundo; a terra firme, o Mundo Vindouro.

O Gaon então cita a conhecida passagem de Tamid 32, na qual Alexandre da Macedônia pergunta aos Sábios do Sul:

“É melhor habitar no mar ou em terra firme?”

Eles respondem:

“Em terra firme, pois todos aqueles que descem ao mar não ficam tranquilos até retornarem à terra firme.”

O Gaon entende essa conversa em sentido mais profundo.

Alexandre possuía enorme poder e os prazeres deste mundo. Sua pergunta seria, portanto:

O que é melhor: este mundo, mesmo quando alguém possui nele tranquilidade e abundância, ou o Mundo Vindouro?

O Gaon compara isso à pergunta feita por Bar Sheshach a Rava:

“Vocês possuem algo semelhante a isto no Mundo Vindouro?”

Rava responde que aquilo que existe para Israel é superior.

A ideia é que nem mesmo alguém que possuísse o mundo inteiro encontraria verdadeira segurança aqui:

“Todos os seus dias são dores.”

E:

“Quem aumenta seus bens aumenta suas preocupações.”

Além disso:

“O homem não morre tendo alcançado sequer metade de seu desejo.”

Quanto mais possui, mais deseja possuir.

No Olam HaBa, ao contrário, a pessoa sabe que aquilo que possui não lhe será retirado e encontra satisfação em sua porção.

É por isso que os Sábios dizem que ali não existe a mesma dinâmica de inveja e ódio, e por isso a morte de um Tzadik é descrita como:

“Sua alma repousou.”

Também é nesse sentido que se diz:

“Uma hora de satisfação espiritual no Mundo Vindouro é melhor...”

Assim, aquele que está no “mar” deste mundo deseja finalmente alcançar a “terra firme”.

A tempestade: doença e aproximação da morte

“E houve uma grande tempestade no mar”

A tempestade representa a atuação do Din neste mundo.

Inicialmente, porém, o Din não toma imediatamente a alma. Primeiro ele atinge o corpo, afligindo-o com doenças graves.

O Gaon relaciona isso à expressão de Kohelet:

“Uma doença má.”

Somente depois o Din vem tomar a alma por meio dessas enfermidades.

Por isso a tempestade atinge especificamente o navio de Yonah. O Gaon lembra Pirkei deRabbi Eliezer e Midrash Rabbah: a tempestade atingia aquele navio, enquanto os outros navios navegavam em paz.

Na alegoria, a tempestade não é uma calamidade geral do mundo: é o Din particular que chegou àquele corpo.

“E o navio pensou que iria se quebrar”

O corpo finalmente percebe que será destruído.

Durante a maior parte da vida, diz o Gaon, o homem vive como se este mundo lhe pertencesse e como se jamais fosse morrer. Quando a doença se agrava, essa ilusão termina: ele percebe que a morte é inevitável.

Há, porém, uma diferença fundamental entre alma e corpo.

A alma, embora tenha de responder por suas transgressões, não está necessariamente perdida para sempre. Ela ainda pode receber reparação através do gilgul:

“Duas vezes, três vezes, com o homem...”

O corpo, porém, não recebe esse mesmo tipo de reparação através do gilgul. Ele é comparado a um vaso de barro que, depois de quebrado, não possui reparação.

É por isso que o versículo diz que o navio “pensou” que seria quebrado. O Gaon observa que atribuir pensamento a um navio literal seria estranho; isso confirma a leitura alegórica segundo a qual o navio é o corpo humano.

Os marinheiros: as forças que governam o corpo

“E os marinheiros temeram”

Os marinheiros são as forças responsáveis pela direção do corpo:

o cérebro, o coração e as demais forças corporais.

Quando a morte se aproxima, todas essas forças entram em crise.

“Cada homem clamou ao seu deus”

Esses “deuses” são aquilo em que o homem confiou durante sua vida: especialmente prata e ouro.

O Gaon os chama de:

“deuses de prata e deuses de ouro.”

Na hora da morte, porém, aquilo que a pessoa acumulou não pode salvá-la:

“Lançarão sua prata pelas ruas.”

E:

“A riqueza não será útil no dia da ira.”

É também o sentido de:

“Aqueles que confiam em suas riquezas...”

A fortuna, que durante a vida parecia fornecer segurança, revela-se incapaz de impedir o Din.

Lançando os objetos para fora do navio

Quando os marinheiros lançam os objetos do navio ao mar, o Gaon oferece duas interpretações.

A primeira é literalmente corporal: a pessoa enferma tira suas roupas, deita-se no leito e chega a um estado em que até as roupas se tornam pesadas sobre seus membros.

No fim, ela deixará tudo isso neste mundo.

A segunda interpretação é espiritual: as roupas e os bens são dados à Tzedakah, numa tentativa de aliviar o rigor do decreto.

Assim, “lançar ao mar para aliviar o navio” significa tentar aliviar o peso do Din que recai sobre a pessoa.

A alma começa a retirar-se do corpo

“Yonah desceu às partes mais profundas do navio”

Aqui começa uma descrição extraordinariamente concreta da morte.

Yonah, isto é, a neshamá, desce até as partes inferiores do navio, ou seja, até as pernas do corpo.

O Gaon relaciona isso ao Tikkun 20 e ao versículo:

“E deitou-se aos seus pés.”

“Deitou-se e adormeceu profundamente”

A pessoa encontra-se agora deitada no leito e sobre ela cai uma tardemah, um sono profundo.

O Gaon entende isso como o estado que acompanha a aproximação da morte.

Ele cita:

“Quando o sol estava para se pôr, um sono profundo caiu sobre ele.”

O pôr do sol simboliza o desaparecimento da luz da alma.

Também relaciona isso ao versículo:

“Antes que se escureça o sol...”

O sol, a luz e a lua representam, nessa leitura, a retirada da alma.

A “tardemah de Avraham” também é relacionada à alma, porque no Midrash HaNe'elam Avraham representa a alma.

O Gaon chega a distinguir os termos hebraicos utilizados para “navio”.

Enquanto o corpo está forte e em pleno curso pelo “mar” da vida, ele é chamado oniyah.

Quando já está próximo da “terra firme”, isto é, próximo de deixar este mundo, passa a ser chamado sefinah.

Por isso Mishlei fala do:

“caminho de um navio [oniyah] no coração do mar.”

O coração chama a alma

“E chamou-o o capitão”

O capitão do navio é o coração.

Ele é chamado chefe dos dirigentes porque ocupa a posição central entre as forças que governam o corpo.

O coração chama Yonah — isto é, chama a neshamá.

“Que tens, adormecido? Levanta-te, clama ao teu Deus”

O coração dirige-se à alma:

“Levanta-te!”

Isto é: volta-te Àquele de Quem foste talhada.

Nesse momento extremo, ainda existe preocupação com a possibilidade de reparação:

“Talvez Deus Se volte para nós e não pereçamos.”

Mas surge uma distinção importante. A neshamá pode ser reparada; o corpo não possui a mesma possibilidade. E ligados ao destino corporal encontram-se também a nefesh e o ruach da animalidade.

Portanto, a súplica é para que aquilo que ainda pode ser salvo espiritualmente seja reparado.

A investigação dos pecados

“Lancemos sortes”

As forças e os membros do corpo começam, alegoricamente, a perguntar uns aos outros:

Qual pecado provocou este decreto?

Foi o pecado da língua?

Foi o pecado do órgão sexual?

Foi causado por algum outro membro?

“Lançar sortes” significa, nessa leitura, examinar e investigar os próprios atos, procurando descobrir qual transgressão provocou o decreto.

“A sorte caiu sobre Yonah”

Finalmente a investigação chega a Yonah, a neshamá.

O Gaon afirma aqui algo importante sobre a responsabilidade da alma: quando a alma é boa, ela possui poder para transformar o corpo inteiro para o bem, mesmo quando a constituição material do corpo é naturalmente ruim.

Ele relaciona isso à expressão de Mishlei sobre o “homem de iniquidade” e também à máxima de Pirkei Avot sobre possuir um “bom coração”.

O coração é a morada da alma e, nesse sentido, inclui o conjunto da pessoa.

As perguntas feitas à alma

Os marinheiros agora interrogam Yonah. Na alegoria, as forças do corpo interrogam a alma.

“Por causa de quem nos sobreveio este mal?”

A pergunta significa:

Quem será punido contigo?

Qual membro?

Qual força?

Qual nível da nefesh?

Ou seja, quais partes do organismo e de sua vida psíquica estão implicadas no julgamento?

“Qual é a tua ocupação?”

Isto significa:

Que missão Havayah te deu quando te enviou ao mundo?

A alma é obrigada a recordar o propósito para o qual entrou no corpo.

“De onde vens?”

A pergunta significa:

De qual lugar foste talhada?

Se a alma veio de uma raiz superior, seus atos deveriam ter sido orientados para retornar àquela raiz, em vez de se ocuparem exclusivamente com os negócios deste mundo.

“Qual é a tua terra?”

A pergunta aponta para a Terra da Vida, de onde a alma saiu e para onde deveria retornar.

O Gaon relaciona isso ao Zohar e às palavras:

“Para cultivá-la e guardá-la.”

Ele interpreta isso através dos mandamentos positivos e negativos: cumprir aquilo que deve ser feito e evitar aquilo que é proibido.

“De que povo és?”

Agora a investigação alcança a identidade espiritual.

O Gaon diz que a pessoa passou a vida sem andar adequadamente no caminho de Israel, relacionando isso a:

“E misturaram-se...”

Em seguida apresenta uma ideia presente no vocabulário do Zohar: mesmo entre Israel existem pessoas cujas raízes possuem relação, em alguma medida, com Erev Rav, Amalek e outras nações.

O comentário então relaciona todas essas perguntas a Lech Lecha, segundo o Midrash HaNe'elam:

“Vai-te da tua terra” corresponde a “Qual é a tua terra?”

A “terra” é associada aqui ao Gan Eden inferior.

“Da tua terra natal” corresponde a “De onde vens?”

“Da casa de teu pai” corresponde a “De que povo és?”

E:

“Para a terra que Eu te mostrarei”

corresponde a:

“Qual é a tua ocupação?”

Isto é: ali será mostrado à alma aquilo que ela deve fazer.

A resposta da alma

“Eu sou hebreu”

Yonah responde:

“Ivri anochi — eu sou hebreu.”

O Gaon relaciona Ivri à ideia de estar “do outro lado” (ever), como no versículo:

“Além do rio habitaram vossos pais.”

Mas oferece ainda uma interpretação mística: trata-se do Gan Eden superior, lugar do qual procede a Glória e do qual a alma foi talhada.

Esse lugar encontra-se “além” do rio Dinur, o rio de fogo, pelo qual é necessário passar.

Assim, “eu sou Ivri” descreve a alma como alguém cuja verdadeira origem está além do rio, no domínio superior.

Segundo o Gaon, essa declaração responde simultaneamente a duas das perguntas anteriores.

“Ao Deus dos céus eu temo”

Essa é a resposta à pergunta:

“Qual é a tua ocupação?”

A verdadeira ocupação da alma deveria ser Yirat Shamayim, temor do Deus dos céus.

“Que fez o mar e a terra seca”

O “mar” e a “terra seca” voltam a representar os dois domínios:

este mundo, de um lado;

Olam HaBa e Gan Eden, do outro.

A missão consiste em preparar, enquanto se está no mar, aquilo que será levado para a terra firme.

Em outras palavras: utilizar esta vida para preparar aquilo que permanecerá no mundo futuro.

Essa é a resposta à pergunta:

“Qual é a tua terra?”

A gravidade da descoberta

“Os homens temeram com grande temor”

Agora as forças corporais percebem a grandeza da alma e de sua missão.

Por isso perguntam:

“Que é isto que fizeste conosco?”

A ideia é:

Se foste criada para uma missão tão elevada e tua origem é tão sublime, como pudeste viver dessa maneira até agora?

Eles compreendem que a alma passou a vida fugindo de Havayah. E sabem disso porque “ela lhes contou”: sua própria trajetória e orientação durante a vida testemunham que sua mente e sua intenção permaneceram voltadas para essa fuga.

A doença continua avançando

“Que faremos contigo para que o mar se acalme?”

As forças do corpo perguntam:

Que tikun ainda podemos fazer para que sejamos curados e o decreto seja acalmado?

Mas:

“O mar ia ficando cada vez mais tempestuoso.”

Isto significa que a doença continua se agravando.

“Erguei-me e lançai-me ao mar”

Yonah responde:

“Erguei-me e lançai-me ao mar.”

O Gaon relaciona “erguer” à expressão de Bereshit 40:

“Faraó levantará tua cabeça de sobre ti.”

Nesse estágio, a neshamá, que havia descido até as pernas, precisa agora subir novamente pelo corpo até a garganta.

Portanto, o movimento de Yonah sendo erguido representa o movimento final da alma dentro do corpo durante sua retirada.

O corpo ficará sem a alma

Quando Yonah é lançado para fora do navio, isso representa a neshamá deixando o corpo.

O navio permanece sem Yonah; o corpo permanece sem sua alma.

Então:

“O mar se acalmará sobre vós.”

Isto significa que cessarão as aflições deste mundo.

“Por minha causa veio esta grande tempestade”

A alma reconhece que o Din chegou por causa daquilo que ocorreu durante sua vida.

O Gaon explica que a acusação da Midat HaDin [medida de julgamento] contra o corpo continua apenas enquanto dura a vida humana.

Por isso, nesse estágio, não existe para o corpo outra solução que impeça o processo já iniciado.

A última tentativa de retorno

“Os homens remaram para retornar à terra seca”

Os homens representam novamente todas as forças do corpo.

Agora elas tentam mudar de direção.

Querem retornar à “terra seca”, isto é, querem finalmente seguir o bom caminho, o caminho da Árvore da Vida.

Trata-se de uma tentativa de teshuvá no limite extremo da vida.

“Mas não puderam”

O Gaon explica de maneira severa:

Nesse ponto, a teshuvá já não consegue anular aquele decreto específico, porque o Gmar Din, a conclusão do julgamento, já ocorreu.

Ele relaciona isso a I Shemuel:

“Pois Havayah desejava fazê-los morrer.”

O ponto do comentário não é uma negação geral da teshuvá, mas a descrição de um estágio em que o decreto de morte já foi concluído.

“Não pereçamos com a nefesh deste homem”

As forças corporais clamam a Havayah para que não sejam destruídas juntamente com a neshamá.

E dizem:

“Não coloques sobre nós sangue inocente.”

O Gaon relaciona isso à responsabilidade do próprio homem por ter provocado o encurtamento de sua vida. A pessoa deverá prestar contas também por aquilo que fez contra sua própria existência.

“Tu, Havayah, fizeste conforme desejaste”

Aqui aparece uma discussão profunda sobre a responsabilidade da alma e a constituição do corpo.

A nefesh procede de um lugar santo e superior.

A matéria corporal, porém, pode possuir uma constituição naturalmente má, inclinada aos desejos.

As forças corporais, portanto, argumentam:

“De que somos culpadas? Tu criaste esta matéria conforme Tua vontade e a formaste de um lugar inferior e impuro.”

O Gaon vê aqui uma alusão à bênção tradicional das mulheres:

“Que me fez conforme Sua vontade.”

Nesse contexto alegórico específico, ele associa essa expressão à matéria corporal.

A morte

“Ergueram Yonah e lançaram-no ao mar”

Chega finalmente a separação.

A neshamá começa a retirar-se dos membros do corpo, membro após membro.

Esse processo culmina na separação completa entre alma e corpo.

Então:

“O mar cessou de sua fúria.”

A tempestade cessa porque o Din que estava agindo sobre aquele organismo durante o processo da morte chegou ao seu término.

O que acontece imediatamente depois

“Os homens temeram a Havayah com grande temor”

O Gaon descreve uma sequência.

Primeiro parte a neshamá.

Depois começam a retirar-se as demais forças.

Nesse momento aparece a referência ao canto do galo, que o Gaon relaciona ao Zohar e ao versículo de Yirmeyahu:

“Quem não Te temeria, ó Rei das nações?”

Quando chega o momento de a pessoa deixar este mundo, uma chama sai do lado norte, passa pelo Nahar Dinur e alcança as asas de um galo negro. Então o galo canta três vezes, e cada canto corresponde a uma etapa do julgamento e da morte.

À pessoa são apresentados todos os seus atos, e ela recebe sobre si o Din correspondente.

“Ofereceram sacrifícios e fizeram votos”

Finalmente:

“Ofereceram um sacrifício a Havayah e fizeram votos.”

O Gaon entende a própria aceitação do julgamento como possuindo o aspecto de uma oferta.

Ele remete novamente à passagem talmúdica e explica que a maneira do Santo, bendito seja Ele, não é como a maneira humana: mesmo quando um homem é condenado à morte, sua aceitação do Din pode adquirir o caráter de um korban, um sacrifício oferecido diante de Havayah.

Por isso ele relaciona o versículo:

“E a Ti será cumprido o voto.”

às palavras:

“E ofereceram um sacrifício.”

O quadro completo da alegoria

Todo o primeiro capítulo de Yonah transforma-se, assim, numa descrição da existência humana.

Yonah é a neshamá. Ela procede de um domínio superior e é enviada por Havayah para realizar um tikun.

Nínive é este mundo, a “grande cidade” que precisa ser reparada.

Tarshish representa os desejos, prazeres e riquezas deste mundo.

Yafo representa a descida ao domínio atraente aos sentidos.

O navio é o corpo.

O mar é este mundo, instável, cheio de ondas e sofrimentos.

A terra firme é o Olam HaBa e o Gan Eden.

Os marinheiros são o cérebro, o coração, os membros e as demais forças que dirigem o organismo.

O capitão é especificamente o coração.

A carga do navio são os bens e aquilo que o homem acumulou neste mundo, que no momento extremo já não pode salvá-lo e pode ser abandonado ou transformado em Tzedakah.

O grande vento é a Midat HaDin [Medida do Julgamento].

A tempestade manifesta-se no corpo como doença grave.

Lilit- Chaz veShalom aparece na descrição do mecanismo do Anjo da Morte: primeiro a sedução pelo pecado, depois a tomada da alma; a “espada de dois gumes” representa consequências neste mundo e no Mundo Vindouro.

Yonah descendo ao fundo do navio representa a neshamá descendo até as pernas quando começa sua retirada.

O sono profundo representa o estado que precede a morte.

A investigação dos marinheiros representa o exame dos pecados — língua, sexualidade e demais membros — diante do decreto.

Erguer Yonah representa a alma subindo novamente das partes inferiores do corpo em direção à garganta.

Lançá-lo para fora do navio representa a separação da neshamá do corpo.

A calmaria do mar representa o fim das aflições corporais desta vida.

E mesmo aí a história da alma não terminou. O corpo-navio foi quebrado, mas a neshamá não é necessariamente perdida. Desde o começo do comentário, o Gaon havia preparado a continuação: aquilo que ela não conseguiu reparar pode exigir gilgul, e a alma poderá ser enviada novamente para completar seu tikun.

Assim, a fuga de Yonah não é simplesmente, nessa interpretação, a história de um profeta tentando escapar de sua missão. É a história da alma que esqueceu por que veio ao mundo.

Ela veio da presença de Havayah, entrou no corpo para realizar um tikun, deveria governar suas forças e transformar o corpo para o bem, mas permitiu que o intelecto se submetesse aos desejos. No final da vida, quando o “mar” se torna tempestuoso, a alma é confrontada novamente com as perguntas fundamentais:

De onde vieste?
Qual é tua terra?
A que povo pertences?
Qual era tua tarefa?

E sua própria resposta contém todo o sentido da jornada:

“Ivri anochi — eu sou hebreu.”

Sua verdadeira origem está do outro lado, no domínio superior de onde foi talhada; sua tarefa é temer o Deus dos céus; e sua passagem pelo “mar” deste mundo deveria servir para preparar aquilo que levará consigo quando finalmente alcançar a terra firme - O mundo vindouro.


Shalom, Shalom!!!


O Artesão Da Luz