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sábado, 4 de julho de 2026

CUIDADO COM AS SOMBRAS!: o demônio do meio-dia


Diz a tradição que, entre os dias 17 de Tamuz e 9 de Av, o perigo não espreita somente na calada da noite, mas sim sob o sol escaldante, especificamente entre as dez da manhã e as três da tarde. É nesse horário que o Kétev Meriri [não pronuncie este nome!], o sinistro demônio do meio-dia, ganha vida. Ele odeia os extremos: não tem poder no sol pleno e nem na sombra total, preferindo habitar as penumbras — aquela sombra minúscula colada a um jarro de água ou os cantos sujos das latrinas. Quem o viu descreve uma criatura bizarra e mutante! Cruzar o caminho desse ser sozinho é um erro fatal: o simples vislumbre de sua forma real faz o corpo cair ao chão em convulsões ou, pior, causa a morte instantânea, a menos que você dê a sorte de estar vivendo um período de imensa prosperidade espiritual ou saiba trancá-lo com palavras místicas e segulot!


O verdadeiro horror, porém, é como ele se alimenta da impulsividade humana para causar tragédias de forma invisível. O demônio adora se posicionar logo atrás de alguém que está prestes a cometer um ato impensado, impaciente ou agressivo achando que isso não prejudicará muito a sua vítima, porém, o demônio entra em ação com sua força destrutiva, transformando a ação num acidente fatal ou em uma agressão com consequências irreversíveis.

Sabendo que qualquer faísca de raiva ou imprudência viraria uma brecha para essa força maldita, os sábios da época criaram regras rígidas para este período:


SHULCHAN ARUCH, ORACH CHAIM 

551:18


Deve-se ter o cuidado, de 17 de Tamuz até 9 de Av, de não andar sozinho da quarta hora até a nona hora do dia (aproximadamente entre as 10h e as 15h) [porque nelas o Kétev Meriri domina] (...)


PESSACHIM 111B

"Kétev Meriri — existem dois tipos de Kétev. Um atua antes do meio-dia e o outro atua depois do meio-dia.

O que atua antes do meio-dia chama-se 'Kétev Meriri'; ele se parece com um pote de coalhada (ou condimento à base de leite) e gira dentro dele como uma colher de mexer.

O que atua depois do meio-dia chama-se 'Kétev Yashud Tzohorayim' (o Kétev que assola ao meio-dia); ele se parece com o chifre de um bode e gira sobre si mesmo como um funil (ou redemoinho).”

"Abaye estava caminhando pelo caminho, e Rav Papa ia à sua direita e Rav Huna, filho de Rav Yehoshua, à sua esquerda.

[Abaye] viu aquele Kétev Meriri (o demônio do meio-dia) vindo em direção ao lado esquerdo dele. Ele imediatamente mudou a posição deles, passando Rav Papa para a sua esquerda e Rav Huna, filho de Rav Yehoshua, para a sua direita.

Rav Papa perguntou-lhe: 'Por que sou diferente (o que fiz de errado) para que você não tenha se preocupado comigo [expondo-me ao demônio]?'

[Abaye] respondeu-lhe: 'A hora (a sorte, o momento) está a teu favor'."

(Nota de contexto: Abaye sabia que a mão direita tem mais proteção espiritual por causa das Mitzvót, por isso tirou Rav Huna da esquerda vulnerável. No entanto, ele colocou Rav Papa na esquerda porque sabia que Rav Papa estava passando por um período de extrema boa sorte e prosperidade e, por isso, estava naturalmente protegido contra as forças do mal).

"De 1 de Tamuz até o dia 16 dele — com certeza eles são encontrados. Daqui em diante [do dia 17 de Tamuz até 9 de Av] — é incerto se são encontrados, incerto se não são encontrados.

E eles são encontrados na sombra de um jarro de água que não tenha se afastado um côvado [uma sombra muito curta e colada ao jarro], e nas sombras da manhã e da tarde que não cheguem a medir um côvado, e o principal lugar onde são encontrados é nas sombras das cabines de banheiro."

(Nota de contexto: O Talmude aqui explica que, embora o período de 17 de Tamuz a 9 de Av seja o auge do perigo espiritual devido ao luto, a presença física real e frequente desses seres ocorre na primeira metade do mês de Tamuz. Eles habitam as penumbras — áreas onde a sombra é mínima, quase inexistente, ou em locais ritualmente impuros, como os banheiros públicos).


MIDRASH TEHILIM 91

Midever ba'ofel yahallokh - "Nem da peste que anda na escuridão" [Tehilim 91:6].

Os Rabanan (Nossos Mestres) disseram: Trata-se de um shed (demônio). Rabbi Yehuda, filho de Rabbi Yossi, disse: O termo Kétev expressa o sentido de destruição (shoded). Rabbi Huna, em nome de Rabbi Yossi, disse:

O demônio Kétev Meriri é feito como que cheio de escamas sobre escamas, pelos sobre pelos, olhos sobre olhos. Ele enxerga por meio de um único olho, e o seu olho fica voltado para dentro do seu próprio coração. Ele não tem poder nem na sombra total e nem no sol pleno, mas sim entre o sol e a sombra (na penumbra). Ele rola como uma bola e tem poder desde a quarta hora até a nova hora do dia [aprox. das 10h às 15h]. Ele domina desde o dia 17 de Tamuz até o dia 9 de Av, e qualquer pessoa que o vê, cai imediatamente sobre o seu rosto.

Chizkiyah (Ezequias) viu-o e caiu sobre o seu rosto. Disse Rabbi Pinchas bar Chama: Aconteceu um caso com um homem que o viu, caiu sobre o seu rosto e tornou-se epilético (sofreu convulsões).

Por conta disso, os Sábios instituíram precauções com as crianças durante esse período: Rabbi Shila, filho de Rabbi Yitzchak, costumava ordenar aos safraya (professores e escribas das escolas comunitárias) que liberassem os talya (meninos e alunos jovens) das quatro horas até as nove horas do dia (período que corresponde aproximadamente ao intervalo das 10h às 15h, horário em que o sol está mais forte e o demônio Kétev Meriri atinge o auge do seu poder).

Rabbi Yochanan costumava ordenar aos professores que não batessem (não aplicassem punições físicas escolares) nos alunos entre o dia 17 de Tamuz e o dia 9 de Av.

Daí conclui o passuk: Miketeve yashud tzohorayim" - ...nem da destruição (Kétev) que assola ao meio-dia" [Tehilim 91:6].


EICHA RABBA 1:29

"Todos os que a perseguiram a alcançaram entre as estreitas (Bein HaMetzarim)" (Lamentações 1:3).

Refere-se aos Yomin deAka (Dias de Angústia), que vão desde o dia 17 de Tamuz até o dia 9 de Av, pois neles o Kétev Meriri é encontrado, conforme o passuk diz: "Nem da peste que anda na escuridão, nem do Kétev (destruição) que assola ao meio-dia" (Tehilim 91:6).

Rabbi Abba bar Cahana e Rabbi Levi [discutem sobre o horário de atuação do demônio]:

Rabbi Abba bar Cahana disse: Ele interrompe a caminhada do meio-dia desde o início da sexta hora até o final da nona hora (aprox. das 12h às 15h).

Rabbi Levi disse: Ele interrompe a caminhada do dia desde o final da quarta hora até o início da nona hora (aprox. das 10h às 15h). E ele não caminha nem no sol pleno e nem na sombra total, mas sim na sombra que está bem próxima ao sol (na penumbra).

Rabbi Yochanan e Rabbi Shimon ben Lakish [discutem sobre a aparência]: Rabbi Yochanan disse: Ele é inteiramente cheio de olhos, feito de escamas sobre escamas e pelos sobre pelos. Rabbi Shimon ben Lakish disse: Ele possui um único olho posicionado sobre o seu próprio coração, e qualquer pessoa que o vê, cai e morre.

E aconteceu um caso com um Chassid (homem piedoso) que o viu, caiu sobre o seu rosto e morreu — e há quem diga que esse homem era Yehuda, filho de Rabbi [Yehuda HaNasi].

Shmuel (o Sábio e médico) viu-o, mas não caiu. Ele disse ao demônio [uma fórmula de isolamento]: "Aqui há uma casa (ou seja, você está confinado e não tem poder sobre mim)".

Rabbi Abbahu estava sentado e ensinando em uma sinagoga na região de Cesareia. Ele viu um homem (bar nash) que carregava um pedaço de madeira e ia bater no seu companheiro. Rabbi Abbahu viu que o mazika (espírito nocivo, demônio) estava de pé atrás daquele homem, carregando um pedaço de ferro.

Rabbi Abbahu levantou-se e gritou para o agressor: "O que você quer? Matar o seu companheiro?!" O homem respondeu: "Mas com este pedaço de madeira alguém morre?" Rabbi Abbahu lhe disse: "Eis que o demônio está atrás de ti carregando um pedaço de ferro; tu bates nele com esta madeira, mas o demônio baterá nele com o ferro, e ele morrerá!”

Por causa de perigos assim: Rabbi Yochanan costumava ordenar aos professores das escolas comunitárias e aos professores de Mishná que não estendessem a tira de couro (arkata - usada para disciplina física) sobre os meninos [como era de costume] naqueles dias.

Rabbi Shmuel bar Nachmani costumava ordenar aos professores e aos professores de Mishná que liberassem os alunos já na quarta hora do dia (aprox. 10h da manhã).


HAYKLA ARAZUTA:

Durante esse período de severidade espiritual, qualquer ato impulsivo que iniciarmos servirá de brecha para que essa força negativa amplifique o erro, empurrando o desfecho para uma verdadeira tragédia. Por isso, mantenha-se atento!


MAIS ASSUNTOS:

 Pesachim 111a-111b:

"Nossos Sábios ensinaram: Há três que não passam entre [dois homens], e não permitem que [dois homens] passem entre eles. E são estes: o cão, a palmeira e a mulher. E há quem diga: também o porco; e há quem diga: também a serpente."

[duas pessoas não devem passar uma entre a outra e uma única pessoa não deve passar entre dois cães, entre duas mulheres ou entre duas palmeiras.]

Contexto e Explicação: Este texto faz parte de uma discussão talmúdica sobre superstições, perigos espirituais ou "ruach ra'ah" (espíritos malignos) que se acreditava estarem associados a certas situações no mundo antigo. O significado de "Não passam entre / Não permitem passar" trata-se de uma preocupação central em relação a interrupção do espaço entre duas pessoas por um terceiro elemento, o que poderia trazer má sorte ou interromper uma conexão espiritual.

A Guemará pergunta: E se eles passam entre eles, qual é o remédio para evitar que alguém seja ferido? Rav Pappa disse: Ele deve começar a recitar um versículo que começa com a palavra El e termina com um versículo que termina com a palavra El. Em outras palavras, ele deveria recitar a passagem: "Deus, que os trouxe do Egito, é para eles como os altos chifres do boi selvagem. Pois não há encantamento com Jacó, nem adivinhação com Israel; agora é dito de Jacó e de Israel: O que Deus realizou" (Números 23:22–23). Este versículo indica que os feitiços não afetam o povo judeu.

Quanto a dois homens entre os quais passa uma mulher em estado de niddá: se ela estiver no início de sua menstruação, ela mata um deles [causa a morte]; se estiver no fim de sua menstruação, provoca uma briga entre os dois. Qual é o remédio? Deve-se começar [um versículo] com ‘El’ e que termine com com ‘El’.

(...) Rabi Yitzchak disse: “O que significa o que está escrito: ‘Ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte, não temerei mal algum, pois Tu estás comigo’? Isto se refere àquele que dorme à sombra de uma palmeira solitária e sob a luz da lua.

E, quanto à sombra de uma palmeira solitária, isso só foi dito quando a sombra de outra palmeira não recai sobre ela; mas, se a sombra de outra palmeira recai sobre ela, não há motivo para preocupação.”

[“Palmeira solitária” — quando não há outra palmeira próxima dela. Mas, quando existe outra palmeira, a shedá (demônia) se afasta para a outra palmeira e não o prejudica.]

A Guemará pergunta: Mas e quanto ao que foi ensinado em uma baraita: Quanto àquele que dorme à sombra de uma única palmeira em um pátio e aquele que dorme à sombra da lua, seu sangue está sobre sua própria cabeça. Quais são as circunstâncias? Se dissermos que a sombra de outra palmeira não cai sobre ele, ele também seria ferido se estivesse em um campo. Na verdade, não se deve concluir a partir desta baraita que, se alguém está em um pátio, mesmo que a sombra de outra árvore caia sobre ele, isso continua sendo perigoso? A Guemará conclui: De fato, aprenda com ela que é assim.

[“Num pátio”: pois o lugar é estreito e não há como desviar nem para a direita nem para a esquerda; assim, [a sombra] recai sobre ele e o prejudica.]

A Guemará acrescenta: E quanto à sombra da lua, dissemos que é perigoso dormir lá apenas no final do mês, quando a lua brilha no leste, e portanto sua sombra está no oeste. No entanto, no início do mês, quando a lua brilha a oeste e sua sombra está a leste, não temos problema com isso.

Aquele que faz suas necessidades junto ao toco de uma palmeira é tomado por um rúach palgá — um mal/espírito associado à paralisia. E aquele que apoia a cabeça num toco de palmeira é tomado por um rúach tzeradá — uma afecção ligada à dor de cabeça.

Aquele que passa sobre uma palmeira: se ela for cortada, ele será cortado; se ela tiver sido arrancada, ele será arrancado e morrerá. Isto se aplica quando ele não põe o pé sobre ela; mas, se põe o pé sobre ela, não há nisso motivo de preocupação.

[Os nomes rúach palgá e rúach tzeradá são termos médicos populares aramaicos antigos; Rashi explica o primeiro como paralisia e o segundo como dor em metade da cabeça.]

Há cinco sombras [consideradas perigosas, pois um espírito maligno repousa sob elas]: a sombra de uma palmeira solitária, a sombra de uma kinadá [é o nome de uma árvore], a sombra de uma pirchá [um arbusto de alcaparras] e a sombra de uma zardetá. Há quem diga: também a sombra de um barco e a sombra de um salgueiro.

A regra geral é: toda árvore que tem muitos galhos, mais perigosa é a sua sombra [isso se deve à densidade de sua madeira].

E toda [árvore] cuja madeira é dura, perigosa é a sua sombra, exceto a Kero Masa [a árvore sobo também chamada Árvore do Amor]: embora a sua madeira seja dura, sua sombra não é severa. Pois uma demônia disse a seu filho: ‘Foge, por tua vida, da kero masa, pois foi ela que matou teu pai e também te matará.’ [A árvore kero masa é prejudicial para demônios.]

Rav Ashi disse: “Vi Rav Kahana evitar todas essas sombras.

A Guemará comenta: os demônios junto à alcaparreira chamam-se ruḥei. O demônio encontrado junto às sorveiras chama-se shedá. Os demônios encontrados nos telhados chamam-se rishfei.

A Guemará pergunta: qual é a consequência prática dessas definições? Faz diferença para escrever um amuleto em favor de alguém que foi prejudicado. É necessário conhecer o nome do demônio que causou o dano.

A Guemará acrescenta: o demônio que habita junto à alcaparreira é uma criatura sem olhos. Qual é a consequência prática dessa observação? Ela é relevante para fugir dele [pois, como não tem olhos, o ser não consegue persegui-lo].

A Guemará relata: certa vez, um estudioso da Torá foi aliviar-se junto a uma alcaparreira. Ele ouviu o demônio aproximar-se e fugiu dele [isto é, escapou de sua presença]. Quando esse espírito maligno foi atrás dele, tropeçou e caiu sobre a raiz da árvore. A palmeira secou, e o demônio explodiu.

Foi afirmado acima que os demônios encontrados junto à sorveira são chamados shedêi. A Guemará comenta: esta sorveira que fica próxima à cidade contém não menos de sessenta demônios.

A Guemará pergunta: qual é a consequência prática dessa afirmação? A Guemará responde: ela é relevante para escrever um amuleto destinado a esse número [de demônios]. 

A Guemará relata: certo guarda de uma cidade foi caminhar e parou junto a uma sorveira que ficava perto da cidade. Sessenta demônios do tipo shedêi vieram sobre ele, e ele ficou em perigo.

Veio um dos sábios, que não sabia que aquela era uma sorveira de sessenta shedêi, e escreveu para ele um amuleto contra um único demônio, um shedá. Então, ele ouviu que havia uma celebração dentro da árvore, e os demônios cantavam:

“O turbante do senhor é como o de um estudioso da Torá; mas nós examinamos o senhor e ele não sabe dizer Baruch, a bênção recitada ao colocar o turbante.”

Os demônios zombavam dele, dizendo que ele não sabia escrever corretamente um amuleto. Depois veio outro dos sábios, que sabia que aquela era uma sorveira de sessenta shedêi, e escreveu um amuleto contra sessenta demônios. Ele então os ouviu dizer:

“Retirai os vossos pertences daqui.”


Shalom, Razá Ilaá!


O Artesão Da Luz