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terça-feira, 29 de setembro de 2026

O LIVRO DE JONAS por Vilna Gaon



O Gaon de Vilna lê o Livro de Yonah em um nível inteiramente alegórico: Yonah representa a neshamá, a alma humana, enviada por Havayah a este mundo com uma missão específica. A história do profeta que recebe uma ordem, foge, entra num navio, enfrenta uma tempestade e finalmente é lançado ao mar descreve, nessa leitura, a trajetória da alma desde sua origem superior até sua entrada no corpo, sua corrupção pelos desejos deste mundo, a aproximação da morte e sua separação do corpo.

A missão original da alma

A alma é enviada a este mundo para realizar um tikun, uma reparação. Esse tikun possui duas dimensões: cada pessoa deve realizar seu próprio tikun e, ao mesmo tempo, participar do tikun do mundo inteiro.

Porém, no caso descrito pela história de Yonah, a alma não somente deixa de cumprir aquilo para que foi enviada, como acaba corrompendo a si mesma. Por essa razão, depois de sua primeira passagem pelo mundo, ela precisará retornar em um segundo gilgul, uma nova encarnação, para completar aquilo que deixou de fazer.

Nesse segundo gilgul ela efetivamente realizará seu tikun, mas enfrentará sofrimentos, relacionados à adversidade de seu mazal. Assim, já no início do comentário, o Gaon estabelece que a história de Yonah descreve tanto o fracasso de uma primeira descida da alma quanto sua posterior possibilidade de reparação.

“E veio a palavra de Havayah a Yonah”

Quando o texto diz:

“E veio a palavra de Havayah a Yonah”,

isso representa Havayah enviando a alma ao mundo e dizendo-lhe, em essência:

“Entra no corpo de determinada pessoa e realiza Minha vontade.”

Portanto, o envio profético de Yonah corresponde ao envio da alma para dentro de um corpo específico.

O próprio nome Yonah, “pomba”, representa a alma.

O Gaon apresenta várias razões para essa identificação.

Primeiro, apoiando-se no Zohar, associa a alma à expressão “pomba ingênua, sem entendimento”.

Depois lembra a passagem de Shabat 49 sobre a maneira como as asas da pomba a protegem.

Há ainda outra característica: a pomba não abandona seu companheiro. Isso se relaciona ao Shir HaShirim:

“Minha pomba, minha perfeita.”

Finalmente, a pomba se deixa levar ao abate sem lutar. Isso é relacionado ao versículo:

“Por Tua causa somos mortos o dia inteiro.”

O Gaon também menciona um Midrash que descreve alguém sofrendo por permanecer fiel às mitzvot, inclusive à circuncisão de seu filho.

Por essas razões, a alma recebe o nome Yonah, “pomba”, tanto no primeiro quanto no segundo gilgul, quer sua situação seja favorável, quer seja desfavorável.

“Yonah ben Amitai”

Ben Amitai, “filho de Amitai”, também é interpretado alegoricamente.

A alma é “filha” do Santo, bendito seja Ele, pois está escrito:

“Filhos sois de Havayah, vosso Elohim.”

O Zohar explica que, assim como existe um pai para o corpo, existe um Pai da alma.

Além disso, Amitai é associado a Emet, Verdade, porque o selo do Santo, bendito seja Ele, é Emet.

O Gaon menciona também Yoma 57, onde Rabbi Yitzchak explica que os Sábios sabiam que o Santo, bendito seja Ele, é verdadeiro e, justamente por isso, não mentiriam diante Dele.

Assim, “Yonah ben Amitai” passa a significar alegoricamente: a alma que procede do Deus verdadeiro.

“Dizendo”

A palavra “dizendo” indica que aquilo que Havayah ensina à alma deve ser transmitido.

O conteúdo fundamental dessa mensagem é que os seres humanos precisam saber por que vieram a este mundo.

A resposta do Gaon é explícita: cada pessoa veio para realizar seu próprio tikun e o tikun do mundo inteiro.

“Levanta-te e vai”

“Levanta-te” significa:

Sai do lugar onde permanecias, no Gan Eden.

“Vai” significa:

Desce ao mundo material.

A viagem de Yonah, portanto, começa como a própria descida da alma do Gan Eden para este mundo.

Nínive é este mundo

Nínive representa este mundo.

O Gaon relaciona Nínive à ideia da morada de Havayah. Este mundo é o “escabelo de Seus pés” e, paradoxalmente, é justamente aqui que o ser humano precisa trabalhar para reparar a morada divina.

Por isso a alma não foi enviada ao mundo por acidente. Este mundo é precisamente o lugar de seu trabalho.

“A grande cidade”

O ser humano é tradicionalmente chamado de pequeno mundo e também de pequena cidade.

Se o homem é a pequena cidade, então o mundo inteiro é a:

“grande cidade”.

Assim, quando Yonah é enviado à grande cidade, a alma está sendo enviada ao grande mundo no qual deverá realizar seu tikun.

“Proclama contra ela”

A alma deve ensinar conhecimento ao ser humano para que ele abandone seu mau caminho.

Portanto, a missão de Yonah de advertir Nínive representa a função espiritual da alma dentro do homem: chamá-lo à teshuvá e conduzi-lo ao tikun.

“Pois sua maldade subiu diante de Mim”

Os pecados não são apresentados apenas como atos passados. Segundo o comentário, eles produzem mekatregim, acusadores espirituais.

Esses acusadores permanecem diante do Tribunal celestial, clamando contra a pessoa.

O Gaon relaciona isso à impureza do Mikdash e ao versículo:

“O fim de toda carne veio diante de Mim.”

Ele remete aqui ao Zohar, Parashat Vayechi.

A fuga da alma

“Yonah levantou-se para fugir”

A fuga de Yonah representa a alma que, em vez de cumprir sua missão, foge de Havayah.

É justamente por isso que o retorno espiritual recebe o nome Teshuvá, literalmente “retorno”.

O Ba'al Teshuvá é aquele que deixa de fugir e retorna:

“Retornai a Mim...”

Tarshish: os desejos e as riquezas deste mundo

Yonah foge para Tarshish.

Para o Gaon, Tarshish representa a busca pelos prazeres, desejos e riquezas deste mundo.

Ele apoia essa interpretação em Yechezkel 27, onde Tarshish aparece relacionada ao comércio, à abundância, à prata e ao ouro.

Assim, fugir para Tarshish significa abandonar o objetivo espiritual para perseguir satisfação material, riqueza e desejo corporal.

“Da presença de Havayah”

Antes de entrar neste mundo, a alma encontra-se diante de Havayah.

O Gaon cita a expressão:

“Vive Havayah, diante de quem estive.”

Se a pessoa serve corretamente a Havayah, depois desta vida sua alma retorna ao Olam HaBa e novamente permanece diante Dele.

Mas durante sua vida terrena, quando se entrega aos desejos, ela está simbolicamente fugindo da presença divina, assim como está escrito sobre Kayin:

“E Kayin saiu da presença de Havayah.”

A descida ao corpo

“E desceu a Yafo”

Yafo representa a descida da alma ao mundo corporal.

O nome é associado à ideia de beleza, e a beleza exterior está relacionada aos desejos corporais — como na expressão:

“Bela de aparência.”

O Gaon também relaciona isso à Árvore do Conhecimento e à expressão:

“Desejável aos olhos.”

Portanto, Yafo representa o domínio no qual aquilo que é atraente aos sentidos exerce força sobre o ser humano.

O navio é o corpo

Yonah encontra um navio.

Esse navio representa o corpo humano.

O Gaon relaciona a palavra a expressões de lamento e sofrimento, porque a existência corporal neste mundo está ligada a trabalho, dor e aflição:

“Todos os seus dias são dores e sofrimentos.”

E:

“O homem nasce para o trabalho.”

Aqui surge uma das principais imagens de todo o comentário:

o mundo presente é o mar;
o corpo é o navio;
a alma é o viajante;
o Olam HaBa e o Gan Eden são a terra firme.

Quem entra num navio não pretende estabelecer residência permanente no oceano. Desce ao mar para obter mercadorias que posteriormente levará para terra firme.

Da mesma maneira, a alma entra neste mundo para adquirir aqui aquilo que levará consigo para o Olam HaBa.

As dificuldades da vida são, portanto, as ondas do mar:

“Todas as Tuas vagas e Tuas ondas...”

e:

“As águas me cercaram...”

O corpo é o veículo que permite à alma navegar neste “mar”. Por meio dele ela entra neste mundo e, depois, deve chegar à “terra firme”, o Olam HaBa.

A relação entre alma e corpo

O Gaon introduz então uma imagem importante: a alma é como o marido do corpo.

Ele remete ao Midrash HaNe'elam sobre Avraham e Sarah.

Nesse simbolismo, a qualidade do corpo com o qual a alma se associa é decisiva.

A Eshet Chayil, a “mulher virtuosa” de Mishlei, representa um corpo cuja constituição está preparada para o serviço de Elohim.

Por isso:

“Quem encontrou uma mulher encontrou o bem.”

Em contraste, a “mulher má” representa uma constituição corporal inclinada ao mal.

A alma pode, portanto, encontrar uma matéria corporal que coopera com sua missão ou uma matéria corporal naturalmente inclinada aos desejos deste mundo.

“E pagou sua passagem”

O pagamento da passagem significa que a alma submete seu intelecto às forças corporais.

Em vez de governar o corpo, começa a empregar suas capacidades para satisfazer os desejos dele.

O “salário” recebido pelo corpo é o prazer obtido através do pecado.

O Gaon remete aqui a Chovot HaLevavot e ao ensinamento:

“O ganho de uma transgressão deve ser considerado diante de sua perda.”

Ele explica também a tradição segundo a qual Yonah teria pago o preço de todo o navio: isso significa que, quando ocorre a transgressão, todos os membros do corpo participam de seu prazer.

É nesse contexto que aparece:

“A sabedoria do pobre é desprezada.”

Os membros não querem obedecer ao Yetzer Tov, porque o Yetzer HaRa oferece satisfação imediata:

“Alegra-te, jovem, em tua juventude...”

Isto é: desfruta agora.

O Yetzer Tov, ao contrário, adverte:

“Mas sabe que por todas estas coisas...”

Isto é, lembra que haverá julgamento.

Esse prazer obtido através do pecado é chamado pelo Gaon de “pagamento de uma prostituta”, relacionando-o à mulher sedutora de Mishlei.

“E desceu nele”

A entrada de Yonah no navio significa que a alma entrou no corpo.

Para a alma, isso é uma descida imensa:

“De um teto elevado para um poço profundo.”

O corpo é também a “pequena cidade”. Dentro dessa cidade encontram-se seus “habitantes”: as diversas forças corporais — nutrição, crescimento, desejo, movimento e as demais faculdades — juntamente com todos os membros.

Quando essas forças passam a perseguir Tarshish, todo o organismo se orienta para os desejos deste mundo, afastando-se da presença de Havayah.

O Din começa a agir

“E Havayah lançou um grande vento”

A expressão “Havayah” é entendida aqui como:

Ele e Seu Beit Din, isto é, Havayah juntamente com Seu Tribunal.

O “grande vento” representa a Midat HaDin, o Atributo do Julgamento.

Esse Din acusa constantemente o homem diante do Tribunal celestial. Quando chega o momento em que o homem é entregue ao seu domínio, o agente do Din desce para tomar sua alma.

Ele é chamado de “grande” porque o Gaon associa a grandeza, nesse contexto, à Kelipah.

Esav é chamado de filho “grande”, enquanto Yaakov é chamado “pequeno”. Os Tzadikim também são relacionados à pequenez, porque a Kedushah se faz pequena, ideia que o Gaon relaciona ao Zohar.

Surge então uma identificação mais específica: a espada do Anjo da Morte é Lilit-Chaz veShalom!.

Primeiro ela seduz o homem; posteriormente, toma sua alma.

A “gota de fel” suspensa na espada do Anjo da Morte também é identificada com ela. O Gaon relaciona isso a Mishlei:

“Os lábios da mulher estrangeira destilam mel... mas seu fim é amargo como o absinto, afiado como uma espada de dois gumes.”

Os dois gumes significam que a consequência do pecado atinge o homem em dois mundos: neste mundo e no Mundo Vindouro.

O mar e a terra firme

O mar continua representando este mundo; a terra firme, o Mundo Vindouro.

O Gaon então cita a conhecida passagem de Tamid 32, na qual Alexandre da Macedônia pergunta aos Sábios do Sul:

“É melhor habitar no mar ou em terra firme?”

Eles respondem:

“Em terra firme, pois todos aqueles que descem ao mar não ficam tranquilos até retornarem à terra firme.”

O Gaon entende essa conversa em sentido mais profundo.

Alexandre possuía enorme poder e os prazeres deste mundo. Sua pergunta seria, portanto:

O que é melhor: este mundo, mesmo quando alguém possui nele tranquilidade e abundância, ou o Mundo Vindouro?

O Gaon compara isso à pergunta feita por Bar Sheshach a Rava:

“Vocês possuem algo semelhante a isto no Mundo Vindouro?”

Rava responde que aquilo que existe para Israel é superior.

A ideia é que nem mesmo alguém que possuísse o mundo inteiro encontraria verdadeira segurança aqui:

“Todos os seus dias são dores.”

E:

“Quem aumenta seus bens aumenta suas preocupações.”

Além disso:

“O homem não morre tendo alcançado sequer metade de seu desejo.”

Quanto mais possui, mais deseja possuir.

No Olam HaBa, ao contrário, a pessoa sabe que aquilo que possui não lhe será retirado e encontra satisfação em sua porção.

É por isso que os Sábios dizem que ali não existe a mesma dinâmica de inveja e ódio, e por isso a morte de um Tzadik é descrita como:

“Sua alma repousou.”

Também é nesse sentido que se diz:

“Uma hora de satisfação espiritual no Mundo Vindouro é melhor...”

Assim, aquele que está no “mar” deste mundo deseja finalmente alcançar a “terra firme”.

A tempestade: doença e aproximação da morte

“E houve uma grande tempestade no mar”

A tempestade representa a atuação do Din neste mundo.

Inicialmente, porém, o Din não toma imediatamente a alma. Primeiro ele atinge o corpo, afligindo-o com doenças graves.

O Gaon relaciona isso à expressão de Kohelet:

“Uma doença má.”

Somente depois o Din vem tomar a alma por meio dessas enfermidades.

Por isso a tempestade atinge especificamente o navio de Yonah. O Gaon lembra Pirkei deRabbi Eliezer e Midrash Rabbah: a tempestade atingia aquele navio, enquanto os outros navios navegavam em paz.

Na alegoria, a tempestade não é uma calamidade geral do mundo: é o Din particular que chegou àquele corpo.

“E o navio pensou que iria se quebrar”

O corpo finalmente percebe que será destruído.

Durante a maior parte da vida, diz o Gaon, o homem vive como se este mundo lhe pertencesse e como se jamais fosse morrer. Quando a doença se agrava, essa ilusão termina: ele percebe que a morte é inevitável.

Há, porém, uma diferença fundamental entre alma e corpo.

A alma, embora tenha de responder por suas transgressões, não está necessariamente perdida para sempre. Ela ainda pode receber reparação através do gilgul:

“Duas vezes, três vezes, com o homem...”

O corpo, porém, não recebe esse mesmo tipo de reparação através do gilgul. Ele é comparado a um vaso de barro que, depois de quebrado, não possui reparação.

É por isso que o versículo diz que o navio “pensou” que seria quebrado. O Gaon observa que atribuir pensamento a um navio literal seria estranho; isso confirma a leitura alegórica segundo a qual o navio é o corpo humano.

Os marinheiros: as forças que governam o corpo

“E os marinheiros temeram”

Os marinheiros são as forças responsáveis pela direção do corpo:

o cérebro, o coração e as demais forças corporais.

Quando a morte se aproxima, todas essas forças entram em crise.

“Cada homem clamou ao seu deus”

Esses “deuses” são aquilo em que o homem confiou durante sua vida: especialmente prata e ouro.

O Gaon os chama de:

“deuses de prata e deuses de ouro.”

Na hora da morte, porém, aquilo que a pessoa acumulou não pode salvá-la:

“Lançarão sua prata pelas ruas.”

E:

“A riqueza não será útil no dia da ira.”

É também o sentido de:

“Aqueles que confiam em suas riquezas...”

A fortuna, que durante a vida parecia fornecer segurança, revela-se incapaz de impedir o Din.

Lançando os objetos para fora do navio

Quando os marinheiros lançam os objetos do navio ao mar, o Gaon oferece duas interpretações.

A primeira é literalmente corporal: a pessoa enferma tira suas roupas, deita-se no leito e chega a um estado em que até as roupas se tornam pesadas sobre seus membros.

No fim, ela deixará tudo isso neste mundo.

A segunda interpretação é espiritual: as roupas e os bens são dados à Tzedakah, numa tentativa de aliviar o rigor do decreto.

Assim, “lançar ao mar para aliviar o navio” significa tentar aliviar o peso do Din que recai sobre a pessoa.

A alma começa a retirar-se do corpo

“Yonah desceu às partes mais profundas do navio”

Aqui começa uma descrição extraordinariamente concreta da morte.

Yonah, isto é, a neshamá, desce até as partes inferiores do navio, ou seja, até as pernas do corpo.

O Gaon relaciona isso ao Tikkun 20 e ao versículo:

“E deitou-se aos seus pés.”

“Deitou-se e adormeceu profundamente”

A pessoa encontra-se agora deitada no leito e sobre ela cai uma tardemah, um sono profundo.

O Gaon entende isso como o estado que acompanha a aproximação da morte.

Ele cita:

“Quando o sol estava para se pôr, um sono profundo caiu sobre ele.”

O pôr do sol simboliza o desaparecimento da luz da alma.

Também relaciona isso ao versículo:

“Antes que se escureça o sol...”

O sol, a luz e a lua representam, nessa leitura, a retirada da alma.

A “tardemah de Avraham” também é relacionada à alma, porque no Midrash HaNe'elam Avraham representa a alma.

O Gaon chega a distinguir os termos hebraicos utilizados para “navio”.

Enquanto o corpo está forte e em pleno curso pelo “mar” da vida, ele é chamado oniyah.

Quando já está próximo da “terra firme”, isto é, próximo de deixar este mundo, passa a ser chamado sefinah.

Por isso Mishlei fala do:

“caminho de um navio [oniyah] no coração do mar.”

O coração chama a alma

“E chamou-o o capitão”

O capitão do navio é o coração.

Ele é chamado chefe dos dirigentes porque ocupa a posição central entre as forças que governam o corpo.

O coração chama Yonah — isto é, chama a neshamá.

“Que tens, adormecido? Levanta-te, clama ao teu Deus”

O coração dirige-se à alma:

“Levanta-te!”

Isto é: volta-te Àquele de Quem foste talhada.

Nesse momento extremo, ainda existe preocupação com a possibilidade de reparação:

“Talvez Deus Se volte para nós e não pereçamos.”

Mas surge uma distinção importante. A neshamá pode ser reparada; o corpo não possui a mesma possibilidade. E ligados ao destino corporal encontram-se também a nefesh e o ruach da animalidade.

Portanto, a súplica é para que aquilo que ainda pode ser salvo espiritualmente seja reparado.

A investigação dos pecados

“Lancemos sortes”

As forças e os membros do corpo começam, alegoricamente, a perguntar uns aos outros:

Qual pecado provocou este decreto?

Foi o pecado da língua?

Foi o pecado do órgão sexual?

Foi causado por algum outro membro?

“Lançar sortes” significa, nessa leitura, examinar e investigar os próprios atos, procurando descobrir qual transgressão provocou o decreto.

“A sorte caiu sobre Yonah”

Finalmente a investigação chega a Yonah, a neshamá.

O Gaon afirma aqui algo importante sobre a responsabilidade da alma: quando a alma é boa, ela possui poder para transformar o corpo inteiro para o bem, mesmo quando a constituição material do corpo é naturalmente ruim.

Ele relaciona isso à expressão de Mishlei sobre o “homem de iniquidade” e também à máxima de Pirkei Avot sobre possuir um “bom coração”.

O coração é a morada da alma e, nesse sentido, inclui o conjunto da pessoa.

As perguntas feitas à alma

Os marinheiros agora interrogam Yonah. Na alegoria, as forças do corpo interrogam a alma.

“Por causa de quem nos sobreveio este mal?”

A pergunta significa:

Quem será punido contigo?

Qual membro?

Qual força?

Qual nível da nefesh?

Ou seja, quais partes do organismo e de sua vida psíquica estão implicadas no julgamento?

“Qual é a tua ocupação?”

Isto significa:

Que missão Havayah te deu quando te enviou ao mundo?

A alma é obrigada a recordar o propósito para o qual entrou no corpo.

“De onde vens?”

A pergunta significa:

De qual lugar foste talhada?

Se a alma veio de uma raiz superior, seus atos deveriam ter sido orientados para retornar àquela raiz, em vez de se ocuparem exclusivamente com os negócios deste mundo.

“Qual é a tua terra?”

A pergunta aponta para a Terra da Vida, de onde a alma saiu e para onde deveria retornar.

O Gaon relaciona isso ao Zohar e às palavras:

“Para cultivá-la e guardá-la.”

Ele interpreta isso através dos mandamentos positivos e negativos: cumprir aquilo que deve ser feito e evitar aquilo que é proibido.

“De que povo és?”

Agora a investigação alcança a identidade espiritual.

O Gaon diz que a pessoa passou a vida sem andar adequadamente no caminho de Israel, relacionando isso a:

“E misturaram-se...”

Em seguida apresenta uma ideia presente no vocabulário do Zohar: mesmo entre Israel existem pessoas cujas raízes possuem relação, em alguma medida, com Erev Rav, Amalek e outras nações.

O comentário então relaciona todas essas perguntas a Lech Lecha, segundo o Midrash HaNe'elam:

“Vai-te da tua terra” corresponde a “Qual é a tua terra?”

A “terra” é associada aqui ao Gan Eden inferior.

“Da tua terra natal” corresponde a “De onde vens?”

“Da casa de teu pai” corresponde a “De que povo és?”

E:

“Para a terra que Eu te mostrarei”

corresponde a:

“Qual é a tua ocupação?”

Isto é: ali será mostrado à alma aquilo que ela deve fazer.

A resposta da alma

“Eu sou hebreu”

Yonah responde:

“Ivri anochi — eu sou hebreu.”

O Gaon relaciona Ivri à ideia de estar “do outro lado” (ever), como no versículo:

“Além do rio habitaram vossos pais.”

Mas oferece ainda uma interpretação mística: trata-se do Gan Eden superior, lugar do qual procede a Glória e do qual a alma foi talhada.

Esse lugar encontra-se “além” do rio Dinur, o rio de fogo, pelo qual é necessário passar.

Assim, “eu sou Ivri” descreve a alma como alguém cuja verdadeira origem está além do rio, no domínio superior.

Segundo o Gaon, essa declaração responde simultaneamente a duas das perguntas anteriores.

“Ao Deus dos céus eu temo”

Essa é a resposta à pergunta:

“Qual é a tua ocupação?”

A verdadeira ocupação da alma deveria ser Yirat Shamayim, temor do Deus dos céus.

“Que fez o mar e a terra seca”

O “mar” e a “terra seca” voltam a representar os dois domínios:

este mundo, de um lado;

Olam HaBa e Gan Eden, do outro.

A missão consiste em preparar, enquanto se está no mar, aquilo que será levado para a terra firme.

Em outras palavras: utilizar esta vida para preparar aquilo que permanecerá no mundo futuro.

Essa é a resposta à pergunta:

“Qual é a tua terra?”

A gravidade da descoberta

“Os homens temeram com grande temor”

Agora as forças corporais percebem a grandeza da alma e de sua missão.

Por isso perguntam:

“Que é isto que fizeste conosco?”

A ideia é:

Se foste criada para uma missão tão elevada e tua origem é tão sublime, como pudeste viver dessa maneira até agora?

Eles compreendem que a alma passou a vida fugindo de Havayah. E sabem disso porque “ela lhes contou”: sua própria trajetória e orientação durante a vida testemunham que sua mente e sua intenção permaneceram voltadas para essa fuga.

A doença continua avançando

“Que faremos contigo para que o mar se acalme?”

As forças do corpo perguntam:

Que tikun ainda podemos fazer para que sejamos curados e o decreto seja acalmado?

Mas:

“O mar ia ficando cada vez mais tempestuoso.”

Isto significa que a doença continua se agravando.

“Erguei-me e lançai-me ao mar”

Yonah responde:

“Erguei-me e lançai-me ao mar.”

O Gaon relaciona “erguer” à expressão de Bereshit 40:

“Faraó levantará tua cabeça de sobre ti.”

Nesse estágio, a neshamá, que havia descido até as pernas, precisa agora subir novamente pelo corpo até a garganta.

Portanto, o movimento de Yonah sendo erguido representa o movimento final da alma dentro do corpo durante sua retirada.

O corpo ficará sem a alma

Quando Yonah é lançado para fora do navio, isso representa a neshamá deixando o corpo.

O navio permanece sem Yonah; o corpo permanece sem sua alma.

Então:

“O mar se acalmará sobre vós.”

Isto significa que cessarão as aflições deste mundo.

“Por minha causa veio esta grande tempestade”

A alma reconhece que o Din chegou por causa daquilo que ocorreu durante sua vida.

O Gaon explica que a acusação da Midat HaDin [medida de julgamento] contra o corpo continua apenas enquanto dura a vida humana.

Por isso, nesse estágio, não existe para o corpo outra solução que impeça o processo já iniciado.

A última tentativa de retorno

“Os homens remaram para retornar à terra seca”

Os homens representam novamente todas as forças do corpo.

Agora elas tentam mudar de direção.

Querem retornar à “terra seca”, isto é, querem finalmente seguir o bom caminho, o caminho da Árvore da Vida.

Trata-se de uma tentativa de teshuvá no limite extremo da vida.

“Mas não puderam”

O Gaon explica de maneira severa:

Nesse ponto, a teshuvá já não consegue anular aquele decreto específico, porque o Gmar Din, a conclusão do julgamento, já ocorreu.

Ele relaciona isso a I Shemuel:

“Pois Havayah desejava fazê-los morrer.”

O ponto do comentário não é uma negação geral da teshuvá, mas a descrição de um estágio em que o decreto de morte já foi concluído.

“Não pereçamos com a nefesh deste homem”

As forças corporais clamam a Havayah para que não sejam destruídas juntamente com a neshamá.

E dizem:

“Não coloques sobre nós sangue inocente.”

O Gaon relaciona isso à responsabilidade do próprio homem por ter provocado o encurtamento de sua vida. A pessoa deverá prestar contas também por aquilo que fez contra sua própria existência.

“Tu, Havayah, fizeste conforme desejaste”

Aqui aparece uma discussão profunda sobre a responsabilidade da alma e a constituição do corpo.

A nefesh procede de um lugar santo e superior.

A matéria corporal, porém, pode possuir uma constituição naturalmente má, inclinada aos desejos.

As forças corporais, portanto, argumentam:

“De que somos culpadas? Tu criaste esta matéria conforme Tua vontade e a formaste de um lugar inferior e impuro.”

O Gaon vê aqui uma alusão à bênção tradicional das mulheres:

“Que me fez conforme Sua vontade.”

Nesse contexto alegórico específico, ele associa essa expressão à matéria corporal.

A morte

“Ergueram Yonah e lançaram-no ao mar”

Chega finalmente a separação.

A neshamá começa a retirar-se dos membros do corpo, membro após membro.

Esse processo culmina na separação completa entre alma e corpo.

Então:

“O mar cessou de sua fúria.”

A tempestade cessa porque o Din que estava agindo sobre aquele organismo durante o processo da morte chegou ao seu término.

O que acontece imediatamente depois

“Os homens temeram a Havayah com grande temor”

O Gaon descreve uma sequência.

Primeiro parte a neshamá.

Depois começam a retirar-se as demais forças.

Nesse momento aparece a referência ao canto do galo, que o Gaon relaciona ao Zohar e ao versículo de Yirmeyahu:

“Quem não Te temeria, ó Rei das nações?”

Quando chega o momento de a pessoa deixar este mundo, uma chama sai do lado norte, passa pelo Nahar Dinur e alcança as asas de um galo negro. Então o galo canta três vezes, e cada canto corresponde a uma etapa do julgamento e da morte.

À pessoa são apresentados todos os seus atos, e ela recebe sobre si o Din correspondente.

“Ofereceram sacrifícios e fizeram votos”

Finalmente:

“Ofereceram um sacrifício a Havayah e fizeram votos.”

O Gaon entende a própria aceitação do julgamento como possuindo o aspecto de uma oferta.

Ele remete novamente à passagem talmúdica e explica que a maneira do Santo, bendito seja Ele, não é como a maneira humana: mesmo quando um homem é condenado à morte, sua aceitação do Din pode adquirir o caráter de um korban, um sacrifício oferecido diante de Havayah.

Por isso ele relaciona o versículo:

“E a Ti será cumprido o voto.”

às palavras:

“E ofereceram um sacrifício.”

O quadro completo da alegoria

Todo o primeiro capítulo de Yonah transforma-se, assim, numa descrição da existência humana.

Yonah é a neshamá. Ela procede de um domínio superior e é enviada por Havayah para realizar um tikun.

Nínive é este mundo, a “grande cidade” que precisa ser reparada.

Tarshish representa os desejos, prazeres e riquezas deste mundo.

Yafo representa a descida ao domínio atraente aos sentidos.

O navio é o corpo.

O mar é este mundo, instável, cheio de ondas e sofrimentos.

A terra firme é o Olam HaBa e o Gan Eden.

Os marinheiros são o cérebro, o coração, os membros e as demais forças que dirigem o organismo.

O capitão é especificamente o coração.

A carga do navio são os bens e aquilo que o homem acumulou neste mundo, que no momento extremo já não pode salvá-lo e pode ser abandonado ou transformado em Tzedakah.

O grande vento é a Midat HaDin [Medida do Julgamento].

A tempestade manifesta-se no corpo como doença grave.

Lilit- Chaz veShalom aparece na descrição do mecanismo do Anjo da Morte: primeiro a sedução pelo pecado, depois a tomada da alma; a “espada de dois gumes” representa consequências neste mundo e no Mundo Vindouro.

Yonah descendo ao fundo do navio representa a neshamá descendo até as pernas quando começa sua retirada.

O sono profundo representa o estado que precede a morte.

A investigação dos marinheiros representa o exame dos pecados — língua, sexualidade e demais membros — diante do decreto.

Erguer Yonah representa a alma subindo novamente das partes inferiores do corpo em direção à garganta.

Lançá-lo para fora do navio representa a separação da neshamá do corpo.

A calmaria do mar representa o fim das aflições corporais desta vida.

E mesmo aí a história da alma não terminou. O corpo-navio foi quebrado, mas a neshamá não é necessariamente perdida. Desde o começo do comentário, o Gaon havia preparado a continuação: aquilo que ela não conseguiu reparar pode exigir gilgul, e a alma poderá ser enviada novamente para completar seu tikun.

Assim, a fuga de Yonah não é simplesmente, nessa interpretação, a história de um profeta tentando escapar de sua missão. É a história da alma que esqueceu por que veio ao mundo.

Ela veio da presença de Havayah, entrou no corpo para realizar um tikun, deveria governar suas forças e transformar o corpo para o bem, mas permitiu que o intelecto se submetesse aos desejos. No final da vida, quando o “mar” se torna tempestuoso, a alma é confrontada novamente com as perguntas fundamentais:

De onde vieste?
Qual é tua terra?
A que povo pertences?
Qual era tua tarefa?

E sua própria resposta contém todo o sentido da jornada:

“Ivri anochi — eu sou hebreu.”

Sua verdadeira origem está do outro lado, no domínio superior de onde foi talhada; sua tarefa é temer o Deus dos céus; e sua passagem pelo “mar” deste mundo deveria servir para preparar aquilo que levará consigo quando finalmente alcançar a terra firme - O mundo vindouro.


Shalom, Shalom!!!


quinta-feira, 27 de agosto de 2026

ONDE O MEU NOME ESTÁ (criptografado) NA TORÁ?

Vamos começar com uma história encontrada no Sefer Seder HaDorot, seção Yemot Olam, quinto milênio, [ano] 4954. Eis suas palavras:

“Recebi por tradição que o Ramban tinha um discípulo chamado Rabbi Avner, que se tornou apóstata [abandonou a Torá]. Sua sorte fez com que ascendesse a uma posição elevada, tornando-se temido em toda a terra.

Depois de algum tempo, no dia de Yom Kippur, mandou buscar seu mestre, o Ramban, e, diante dele, matou com suas próprias mãos um porco, cortou-o em pedaços, cozinhou-o e comeu-o. Depois de comê-lo, perguntou ao Rav quantas penas de karet havia transgredido. O Rav respondeu que eram quatro; ele, porém, disse que eram cinco e quis discutir com seu mestre. O Rav lançou-lhe um olhar de ira, e o homem emudeceu, pois ainda lhe restava algum temor de seu mestre.

Por fim, o Rav perguntou-lhe o que o havia levado à apostasia. Ele respondeu que certa vez ouvira [o Ramban] ensinar sobre a Parashat Ha’azinu, dizendo que naquela parashá estavam incluídas todas as mitzvot e todas as coisas existentes no mundo. Como isso lhe pareceu impossível, transformou-se em outro homem [rompeu com a Torá].

O Rav respondeu: ‘Ainda sustento aquilo que disse. Pergunte o que quiser.’

O homem ficou extremamente admirado e disse: ‘Se é assim, mostre-me, por favor, se consegue encontrar meu nome escrito ali.’

O Ramban respondeu: ‘Pediste corretamente; isso podes pedir de mim.’

Imediatamente retirou-se para um canto e orou. Então veio à sua boca o versículo:


אָמַרְתִּי אַפְאֵיהֶם אַשְׁבִּיתָה מֵאֱנוֹשׁ זִכְרָם

ר' אבנר

Rabbi Avner

Amarti af’eihem, ashbitah me’enosh zichram — “Eu disse: Eu os dispersaria; faria cessar dentre os homens a memória deles” (Deuteronômio 32:26).

Pois contando a terceira letra de cada palavra no versículo, encontramos o nome daquele homem, que era Avner junto com a letra Reish que é a inicial de Rabbi, pois o fato de a Torá chamá-lo implicitamente de “Rabi Avner”, apesar de naquele momento ele ser um mumar [apóstata], é uma indicação de que ele retornou em teshuvá.

Quando Avner ouviu isso, seu semblante caiu, e perguntou ao mestre se havia remédio [tikkun] para sua transgressão. O Rav respondeu: ‘Tu ouviste as palavras do versículo’, ou seja, o próprio versículo que contém teu nome já te disse o que fazer.

O Rav seguiu seu caminho.

Imediatamente o homem tomou um barco sem marinheiro e sem remo, entrou nele e deixou-se levar para onde o vento o conduzisse. E nunca mais se soube coisa alguma a seu respeito. (fim da citação)

O Gaon de Vilna num comentário sobre o Sifra deTzniuta, capítulo 5, declarou:

"E o princípio geral é este: tudo aquilo que foi, que é e que será até o fim dos tempos está inteiramente incluído na Torá, desde Bereshit [Bereshit 1:1] até le-einei kol Yisrael [aos olhos de todo Israel - Devarim 34:12].

E não apenas os princípios gerais, mas até mesmo os detalhes de cada espécie e de cada ser humano individualmente, e tudo aquilo que lhe acontecerá desde o dia de seu nascimento até o seu fim, bem como todos os seus gilgulim [reencarnações], todos os seus detalhes e os detalhes dos detalhes.

Do mesmo modo ocorre com cada espécie de animal doméstico, animal selvagem e todo ser vivo existente no mundo; e com cada erva, planta e objeto inanimado; todos os seus detalhes e detalhes dos detalhes, em cada espécie, bem como os indivíduos pertencentes às espécies, até o fim dos tempos — aquilo que lhes acontecerá e sua raiz.

Da mesma maneira, tudo aquilo que está escrito acerca dos Patriarcas, de Moshe e de Israel existe em cada geração, pois as centelhas de todos eles se reencarnam em cada geração, como é sabido.

E igualmente todos os seus atos, desde Adam HaRishon até o final da Torá, encontram-se em cada geração, como é sabido por aquele que compreende. E assim também ocorre em cada ser humano individualmente [...]" (fim da citação).

Veja também Kol haTor 3:3 na continuação das palavras do Gaon:

"E todas essas alusões estão contidas nos números, segundo o segredo do versículo: “Ha-motzi ve-mispar tzeva’am, le-kulam be-shem yikrá — Aquele que faz sair seu exército segundo o número, e a todos chama pelo nome” (Isaías 40:26).

Isto significa que cada ser criado possui um número fundamental próprio, e que a finalidade ou destino particular de cada um, de acordo com seu nome e seu número fundamental, encontra-se aludida na Torá segundo o segredo de “ma‘assê ve-cheshbon — ação e cálculo”; isto é, por meio do cálculo das letras da Torá através de guematria — gematriot e notarikon, método pelo qual as letras são interpretadas como abreviações ou combinações significativas.

E conforme disseram nossos Sábios acerca do versículo: “Lechu chazu mif‘alot Havayah, asher sam shamot ba’aretz — Ide, contemplai as obras de Havayah, que estabeleceu desolações na terra” (Salmos 46:9). Não leias “shamot — desolações”, mas “shemot — nomes”, conforme a interpretação registrada no Talmud Bavli, Berachot 7b.

As “parperaot la-chochmá — iguarias ou condimentos da sabedoria” são os recipientes que recebem as propriedades espirituais superiores provenientes do Olam HaAtzilut — Mundo da Emanação, através dos miluiim — preenchimentos dos nomes e das letras, e dos miluiim de-miluiim — preenchimentos dos preenchimentos, prosseguindo sucessivamente até o Ein Sof — Infinito.

Ou seja, as letras hebraicas (Otiot) podem possuir significado em sua forma simples, em sua forma expandida ou “preenchida” [milu’in], e ainda no preenchimento das próprias letras que compõem esse preenchimento [milu’in de-milu’in], continuando assim em níveis sucessivos.

E cada criatura e cada ser humano, de acordo com suas funções gerais e particulares, encontra-se aludido em seu próprio nome; e encontra-se também aludido na Torá por meio dos valores numéricos da guematria.

Cabe a cada pessoa de Israel empenhar-se com todas as suas forças para alcançar e compreender o nível dos números superiores — misparim elyonim, ocultos em seu próprio nome por meio dos cálculos de guematria — cheshbon gematriot, os quais estão aludidos na Torá e dizem respeito à missão singular — ha-shelichut ha-yechida’it de cada indivíduo, conforme está escrito: “ish al diglo be-otot le-veit avotav — cada homem junto à sua bandeira, segundo os sinais da casa de seus pais” (Números 2:2).

E acerca disso foi dito: “Yigdal na koach Adonai — Que seja engrandecido, por favor, o poder de Adonai...” (Números 14:17).

Este é o segredo do “ma‘assê ve-cheshbon — ação e cálculo” mencionado em Kohelet 9:10.

Cabe, portanto, a cada pessoa alcançar e compreender os cheshbonot ve-gematriot shemo — cálculos e guematriot de seu próprio nome. Caso contrário, ela poderá ter de passar por um novo gilgul, a fim de reparar aquilo que deixou incompleto neste gilgul.

Pois aquele que não conhece as guematriot e os cálculos que lhe pertencem e que estão ocultos em seu nome está destinado a descer ao Sheol.

E, segundo a explicação de nosso mestre no Tikkunei Zohar Chadash, deve-se alcançar aquilo que está contido em seu próprio cheshbon — cálculo — mediante o poder que está em sua mão. Este é o sentido do versículo: “Kol asher timtzá yadchá la‘asot be-koachachá, asê — Tudo aquilo que tua mão encontrar para fazer, faze-o com tua força” (Kohelet/Eclesiastes 9:10), pois:

“ein ma‘assê ve-cheshbon bi-Sheol — não há ação nem cálculo no Sheol” (Kohelet 9:10).

Isto significa que, no Sheol, já não será possível realizar ou completar esse “ma‘assê ve-cheshbon — ação e cálculo”. A razão é que, com base nesse conhecimento, cada pessoa poderá saber como cumprir sua missão singular neste mundo.

E, quanto mais entramos nos Ikvot Meshicha — “passos do Mashiach”, mais se revelam as alusões de guematria — remezei ha-gematriot, nas quais estão ocultos os segredos das finalidades ou missões destinadas tanto gerais quanto particulares.

E acerca disso foi dito:

“Kol gei yinnassê — Todo vale será elevado...” (Isaías 40:4).

E isto corresponde às gematriot que são chamadas “parperaot la-chochmá — iguarias da sabedoria”, conforme é apresentado no Zohar HaKadosh, Tikkun 70. (fim da citação)

EXEMPLOS DE NOMES CRIPTOGRAFADOS NA TORA:

Veja Tratado Chulin 139b, apesar de Haman só surgir muito tempo depois lá na Meguillat Ester, no entanto, ele já é mencionado na Torá:

"os sábios do Talmude perguntam: 'De onde [encontramos uma alusão a] Haman na Torá?' A resposta é: “Ha-min ha-etz” — הֲמִן הָעֵץ — “Acaso da árvore...?” (que pode ser lido Haman para a forca)

Os Sábios perguntaram a Rav Mattana: “De onde, na Torá, encontramos uma alusão a Haman e seu enforcamento?” Ele respondeu citando o versículo pronunciado depois que Adam comeu da Árvore do Conhecimento:

Ha-min ha-etz asher tziviticha le-vilti achol mimennu achalta? — הֲמִן־הָעֵץ אֲשֶׁר צִוִּיתִיךָ לְבִלְתִּי אֲכָל־מִמֶּנּוּ אָכָלְתָּ — “Acaso comeste da árvore da qual Eu te ordenei que não comesses?” (Gênesis 3:11).

A alusão encontra-se em ha-min — הֲמִן. Quando retiramos os nekudot (sinais vocálicos), temos המן, exatamente as mesmas letras do nome Haman.

De onde [encontramos uma alusão a] Mordechai na Torá?”

Rav Mattana respondeu citando Êxodo 30:23, onde, entre os ingredientes do óleo sagrado da unção, aparece a expressão mor deror — מָר דְּרוֹר, “mirra pura”. Essa expressão é traduzida para o aramaico como meira dachya — מֵירָא דַּכְיָא, cuja pronúncia apresenta uma correspondência com o nome Mordechai — מָרְדֳּכַי." (fim da citação).

E agora, de nossos próprios exemplos:

Nosso mestre, o Ari z'l nos guiou a encontrar muitos códigos importantes na Torá e no Tanack, dentre eles, citaremos estes dois:

Em Zechariah 9:9 no verso que fala sobre o Mashiach Ben David, nós encontramos codificado o nome de Rav Akiva:

Gili me’od bat-Tziyon, hari‘i bat-Yerushalayim; hineh malkech yavo lach, tzaddik ve-nosha hu; ani ve-rochev al-chamor, ve-al ayir ben-atonot.

“Alegra-te muito, filha de Tziyon! Exulta, filha de Yerushalayim! Eis que teu rei virá a ti; ele é justo e vitorioso; humilde, montado sobre um jumento, sobre um jumentinho, filho de jumentas.”


גִּילִ֨י מְאֹ֜ד בַּת־צִיּ֗וֹן הָרִ֙יעִי֙ בַּ֣ת יְרוּשָׁלַ֔͏ִם הִנֵּ֤ה מַלְכֵּךְ֙ יָ֣בוֹא לָ֔ךְ צַדִּ֥יק וְנוֹשָׁ֖ע ה֑וּא עָנִי֙ וְרֹכֵ֣ב עַל־חֲמ֔וֹר וְעַל־עַ֖יִר בֶּן־אֲתֹנֽוֹת׃

ר' עקיבא
Rabbi Akiva, o Reish de Rabbi é o Reish de Chamor - O notarikon de חמור — CHaMoR é:
 חכם מופלא ורב רבנן
Chacham Muflá ve-Rav Rabbanan que se traduz:
 “Mestre extraordinário e mestre dos mestres.”

Constantemente o Rabi Akiva é associado à figura do jumentinho, por causa de muitos aspectos de seus gilgulim [um deles Yissachar chamado de um jumento poderoso - Bereshit 49:14], da origem de sua alma que veio dos prosélitos, conforme é nos explicado no Shaar haGilgulim, por ele ser da raiz de Kayin e esses é um dos motivos de ele ter dito em Pesachim 49b:

“Quando eu era um am ha’aretz [homem sem instrução em Torá], eu dizia: ‘Quem me dera encontrar um talmid chacham [sábio da Torá], para que eu o mordesse como um jumento (חמור — chamor)!"

Outro exemplo é o nome completo do Rav Chaim Vital criptografo no profeta Isaías 12:2 que trata sobre o Rei Mashiach:

Hineh El yeshu‘ati, evtach ve-lo efchad; ki ozi ve-zimrat Yah Havayah, va-yehi li li-yeshu‘ah.

“Eis que Deus é a minha salvação; confiarei e não temerei, pois minha força e meu cântico são Yah, Havayah, e Ele se tornou para mim salvação.

הִנֵּ֨ה אֵ֧ל יְשׁוּעָתִ֛י אֶבְטַ֖ח וְלֹ֣א אֶפְחָ֑ד כִּֽי־עׇזִּ֤י וְזִמְרָת֙ יָ֣הּ יְהֹוָ֔ה וַֽיְהִי־לִ֖י לִישׁוּעָֽה׃


חיים ויטל

Chaim Vital

Outro exemplo de código:

Codificado em MEGUILAT ESTHER capítulo Iº no passuq 18 através de RASHEI TEIVOT (INICIAIS) temos o ano 5786 (התשפ"ו) seguido por "ÊSH (אש) - FOGO" e "ËD (אד) - VAPOR" conforme se pode ver abaixo como o ano 5786 marcado em vermelho, FOGO em abóbora escuro e VAPOR em verde.

"Vehayom hazeh tomar'nah sarot Paras u'Madai, asher sham'u et devar hamalkah, lechol sarei hamelech; uchedai bizayon vakatsef."

"E neste mesmo dia dirão as nobres da Pérsia e da Média, que ouviram a palavra da rainha, a todos os príncipes do rei; e haverá desprezo e indignação em abundância."


 וְֽהַיּ֨וֹם הַזֶּ֜ה תֹּאמַ֣רְנָה ׀ שָׂר֣וֹת פָּֽרַס־וּמָדַ֗י אֲשֶׁ֤ר שָֽׁמְעוּ֙ אֶת־דְּבַ֣ר הַמַּלְכָּ֔ה לְכֹ֖ל שָׂרֵ֣י הַמֶּ֑לֶךְ וּכְדַ֖י בִּזָּי֥וֹן וָקָֽצֶף׃


O mais surpreendente veio como a deflagração do bombardeio contra o IRAN e sua nomeação como "EPIC FÚRY (זַעַם אַגָּדִי) - ZA'AM AGADI - FÚRIA ÉPICA. Ao reezaminar o CÓDIGO, descobri que "ZA"AM AGADI" também estava codificado no mesmo passuq através de RASHEI TEIVOT (INICIAIS) sendo a letra ZAYIN (ז) de ZA"AM (זַעַם) o ZAYIN de HAZÊH (הזה) e o ALEF (א) de AGADI (אַגָּדִי) o ALEF de TOMAR'NÁH (תֹּאמַרְנָה).

O passuq fala do temor de uma REVOLTA FEMININA inspirada na rebelião da rainha contra a ordem do rei e isso é muito importante.

"No início de janeiro de 2026, o Irã registrou uma nova e intensa onda de protestos deflagrada inicialmente por uma profunda crise econômica, que rapidamente se transformou em um movimento antigovernamental generalizado. As mulheres voltaram a ocupar um papel central na linha de frente da resistência, construindo sobre o legado do movimento "Mulher, Vida, Liberdade" de 2022."

Fonte: Quadrinhos na Cia.

Se você deseja conhecer a localidade do seu nome na Torá-Tanach, nós temos uma pesquisa de código, você deve entrar em contato conosco e escrever para:

baaltzafuntorah@gmail.com 



O Artesão Da Luz