Sobre o assunto do gilgul, do yibum e do ibur, e estas são as palavras. Vi a necessidade de me estender mais neste ensinamento acerca do gilgul, do yibum e do ibur. Eis que o aspecto do ibur ocorre durante a vida, como foi mencionado acima; isto é, que às vezes se apresenta à pessoa alguma mitsvá, e ela a realiza conforme a sua forma correta, e então se apresenta a ela uma nefesh de algum tzadik antigo, que realizou essa mesma mitsvá corretamente. E uma vez que se assemelharam juntos nessa mitsvá, a nefesh daquele tzadik fez ibur nele.
E não apenas isso, mas também é possível que, estando esse tzadik ainda presente em sua época, em vida, a sua nefesh fez ibur nele pela razão mencionada; pois quando esse homem realiza alguma mitsvá, ou mitsvot que se relacionam àquele tzadik, visto que também ele as realizou da mesma maneira e corretamente, então a nefesh daquele tzadik fez ibur nele, mesmo estando ambos vivos ao mesmo tempo.
E este é o segredo do versículo “e a nefesh de David se ligou à de Yonatan” [ I Samuel 18:1] , pois, estando ambos vivos simultaneamente, a nefesh de David fez ibur em Yonatan.
Quanto ao aspecto do gilgul, é necessário estender-se um pouco em seu tema; por isso iniciaremos sua explicação a partir de Adam HaRishon, para que as coisas sejam compreendidas com facilidade.
(Glosa — diz o autor, Rav Chaim Vital: parece que, com uma única mitsvá realizada corretamente, é suficiente atrair o início do ibur, e não será necessário completar todas as mitsvot.)
Sabe que, quando Adam HaRishon pecou, foram danificadas todas as centelhas [נִיצוֹצוֹת (nitzotzot), Singular:נִיצוֹץ (nitzóts)] de sua nefesh, de seu ruach e de sua neshamah. O assunto é conforme se sabe: assim como o corpo do homem é composto de muitas centelhas, nos 248 membros e 365 tendões, havendo muitas centelhas em sua cabeça, assim como em seus olhos, e igualmente em cada membro e membro, assim também ocorre com essa nefesh.
E como explicaram no Midrash Tanchuma e no Midrash Rabá , na parashá Nasso, sobre o versículo “onde estavas quando Eu fundava a terra” , ensinando que Adam HaRishon estava deitado como um golem , e isto estava como culpa em sua cabeça etc. E de modo semelhante se dividiu o ruach que havia nele, assim como a neshamah que havia nele.
[Shemot Rabba 40: “(...) Disse o Santo, bendito seja Ele: aquele que preparei desde o princípio para fazer o Mishkan, já lhe chamei o nome. O que significa ‘e é sabido que ele é o homem’ (Eclesiastes 7:10)? Até que Adam ha-Rishon estivesse lançado como um golem, o Santo, bendito seja Ele, mostrou-lhe cada tzadik e tzadik que estava destinado a surgir dele: há quem esteja ligado à sua cabeça, há quem esteja ligado ao seu cabelo, há quem esteja ligado à sua testa, há quem esteja nos seus olhos, há quem esteja no seu nariz, há quem esteja na sua boca, há quem esteja no seu ouvido, e há quem esteja no malteín [este é o lugar do anel].
E saiba: no momento em que Iyov buscava discutir com o Santo, bendito seja Ele, e disse: ‘Quem dera eu soubesse e o encontrasse; apresentaria diante dele o meu julgamento’ (Jó 23:3–4), o Santo, bendito seja Ele, respondeu-lhe: tu procuras discutir comigo? ‘Onde estavas quando fundei a terra?’ – Eifó hayíta be-yasdí árets? (Jó 38:4). O que significa ‘onde’? (Eifó) Disse Rabi Shim‘on ben Lakish: o Santo, bendito seja Ele, disse-lhe: Iyov, dize-me, essa tua “onde”, em que lugar estava dependurada? Na sua cabeça, ou na sua testa, ou em algum de seus membros? Se sabes em que lugar estava a tua “onde”, então discutes comigo. Eis o sentido de ‘onde estavas’. (...)]
E quando ele pecou, então a maioria das centelhas de sua nefesh, de seu ruach e de sua neshamah foram danificadas, fazendo-as imergirem nas klipot. E este é o segredo do que está escrito no Sefer haTikunim, na introdução, sobre o versículo “como um pássaro errante de seu ninho” [Mishlei 27:8] : assim como a Shechinah foi exilada entre as klipot, do mesmo modo os tzadikim foram exilados com ela, e andam errantes atrás dela, de lugar em lugar.
E conforme o nível das centelhas, assim elas foram exiladas no local que lhes corresponde dentro das klipot, (as centelhas que vieram da) cabeça (são exiladas para a) cabeça (das Klipot), (as centelhas que vieram do) olho (são exiladas para o) olho (das Klipot), etc. E este é o segredo do exílio das almas ali mencionado.
E eis que também Kayin e Hevel, seus filhos, pecaram com outro pecado, além do pecado de Adam, seu pai, e também as suas centelhas (nitzotzoteihem) foram afundadas nas profundezas das klipot posteriormente.
E, porém, em cada geração e geração, saem algumas dessas centelhas, e vêm em gilgul neste mundo, tudo conforme o aspecto da raiz das almas daquela geração — ou das centelhas da cabeça, ou das centelhas do olho, e assim por diante — e fazem tikun neste mundo.
E há quem, mesmo vindo em gilgul para fazer tikun, não se guardou do pecado, e voltou a se afundar novamente dentro das qlipot como no início, ele e todas as centelhas que se estendem dele e dependem dele. E este é um aspecto intermediário, que inclui gilgul e ibur, pois todas as centelhas da nefesh, até mesmo aquelas que fizeram tikun, vêm em gilgul completo junto com a centelha particular danificada desde o momento em que nasceu, e não se separam de modo algum até o dia da morte.
Porém, o gilgul das centelhas que foram adoçadas (hametukanot) é chamado ibur, porque ela não toma parte nas transgressões deste corpo, mas apenas em seus méritos. Da mesma forma como foi explicado nas nefashot dos tzadikim que já morreram, e vêm no segredo de ibur de fato durante a vida, e não desde o dia em que nasceu.
[Hametukanot - adoçadas - significa que foram corrigidas. Até aqui há dois modos de ibur:
1. Ibur como “gilgul” das centelhas já corrigidas chamadoעיבור מיום שנולד (ibur mi-yom shenolad) = ibur desde o nascimento, elas vêm junto com o indivíduo, mas não participam das transgressões do corpo, só dos méritos. Por isso, esse gilgul delas é chamado ibur.
2. Ibur “na vida” עיבור בחיים / עיבור ממש בחיים (ibur ba-chayim / ibur mamash ba-chayim) = ibur durante a vida. Centelhas que não foram danificadas depois de terem feito tikun não vêm em gilgul algum, somente por ibur durante a vida, e isso apenas se ele merecer.]
E resulta que a centelha que não fez tikun de modo algum, por meio do cumprimento das mitsvot que lhe são relacionadas, ou que transgrediu uma transgressão dentre aquelas para as quais não há techiyah [ressurreição do corpo físico], é ela que se enrola/circula (mitgalgelet) no segundo corpo e é chamada pelo seu nome. E as centelhas que fizeram tikun por meio das mitsvot, mas que foram danificadas por uma transgressão leve, vêm no ibur mencionado, embora isso também seja gilgul.
Mas as centelhas que não foram danificadas por transgressão depois de terem feito tikun por meio das mitsvot, não vêm de modo algum, exceto por meio de ibur durante a vida; e mesmo isso só é, se ele merecer.
O que resulta disso é que, quando a nefesh se enrola/circula (mitgalgelet) neste mundo, o essencial do seu gilgul não está senão naquela parte particular danificada, que se relaciona com aquele corpo; e os demais aspectos da nefesh, que já vieram em outros corpos e fizeram tikun ali, não vêm ali senão no aspecto de ibur.
E por isso, quando a parte que se relaciona com aquele corpo fizer alguma mitsvá neste mundo, também os demais aspectos da nefesh que estão em ibur nele tomarão parte nessa mitsvá, pois também ela o auxilia ao fazer essa mitsvá, conforme o que foi mencionado acima no segredo do ibur de algum tzadik.
Ao contrário, quando essa parte particular peca, então os demais aspectos da nefesh não têm parte em sua punição, porque ela o auxilia a fazer o bem, e não a fazer o mal.
E resulta que, no momento em que o homem nasce em gilgul, toda a nefesh em sua totalidade, com todas as suas partes, se enrola/circula ali (no ciclo de encarnação); porém o essencial do gilgul não é senão para aquela parte particular que se relaciona com aquele corpo, que vem para fazer tikun do que danificou no corpo anterior, e nela dependem o salário e a punição. Mas o restante das partes da nefesh toma parte no salário, e não na punição, como foi mencionado.
E eis que, já que esta nefesh, em sua totalidade, sofre agora os sofrimentos e as punições que vêm sobre este corpo em sua vida — além do que já sofreu nos primeiros corpos, das demais centelhas dela — e também sofre o sofrimento desta morte, e o sofrimento de depois da morte, por meio disso são expiados os seus primeiros pecados.
E, porém, as mitsvot que ela fez nos gilgulim primeiros, e também as mitsvot que esta centelha faz agora, ela tem parte nelas, como foi mencionado; e por meio disso se completa o seu tikun e a sua completude.
E, porém, se ela tomasse parte também nas transgressões que esta centelha faz agora, nunca haveria qualquer tikun para a nefesh, em todos os gilgulim do mundo, pois sempre o homem peca e acrescenta crimes sobre os seus primeiros pecados que o precederam em outros gilgulim, e não há fim para eles.
Mas, já que as demais partes da nefesh não tomam parte na maldade desta centelha, mas apenas em seus méritos, resulta que as transgressões se completam para serem expiadas, e não são acrescentadas. E os méritos se renovam e se acrescentam em cada gilgul de centelha e centelha, e por meio disso há um término para o aspecto do gilgul e para os tikunim da nefesh — e entende isto muito bem.
E eis que, deste modo, completa-se a nefesh em todas as suas centelhas, por meio dos gilgulim, até que se completem para se enrolarem [vir em gilgul] e fazerem tikun todas as centelhas, desde a cabeça da nefesh até os seus pés; e então “se completarão os pés” para vir o Mashiach, como foi mencionado no Zôhar, Parashat Pekudei, folha 258, e no fim de Parashat Vayakhel.
Porém, no aspecto do yibum não é assim. E a razão é que aquele que vem em Gilgul por outras causas, por causa de todas as demais transgressões da Torá, tem para si uma reparação por meio dos sofrimentos que ele sofre neste mundo, ou no Guehinom; e por isso todos os aspectos da nefesh não precisam do gilgul, mas sim pelo caminho de ibur, como foi mencionado, e a centelha particular é a que vem por Gilgul.
Mas aquele que vem no segredo do yibum é por causa de que morreu sem filhos, e eis que ele é como se não tivesse tido sucesso de modo algum e essencial, e como se não tivesse estado no mundo; e o primeiro corpo é como se não tivesse existido, como é mencionado na Parashat Vayeshev (187a). E por isso é preciso que aquela nefesh que esteve no primeiro corpo, com todas as suas partes, volte agora em Gilgul completamente, de novo, para a necessidade dela mesma; e este segundo corpo é o seu corpo essencial. E quando ela fizer tikun nele e se despedir deste mundo, eis que, no tempo da techiyat hametim (תְּחִיַּת הַמֵּתִים) = “ressurreição dos mortos”, a nefesh não retornará senão nele; mas no primeiro corpo não entra nele senão aquele ruach que ele deixou em sua mulher, como é mencionado no Saba de Mishpatim.
[Veja Shaar haPessukim, Parashat Vayera, Siman 21, aqui vamos oferecer uma explicação muito resumida e simples: Na primeira união sexual, o objetivo não é gerar um filho, mas sim "ativar" o potencial espiritual da mulher. O marido transmite a mulher uma energia vital permanente (uma luz espiritual) chamada aqui de Ruach, mas não é o nível de Ruach propriamente dito (mas uma porção vinda da Ohr Maquif dele). Essa energia inicial funciona como um fermento na massa ou um motor que fica guardado no centro espiritual dela para sempre. É por isso que, energeticamente, a primeira união serve para construir o "recipiente" que receberá a vida no futuro.
Depois que esse "motor" foi instalado na primeira vez, as próximas uniões funcionam de forma diferente: Para que um bebê seja gerado, são necessárias duas forças. A mulher envia uma energia de desejo e aspiração (que sobe), e o homem responde com uma energia de bênção e luz ( que desce). A mulher não conseguiria elevar a sua energia sozinha. Ela usa aquele "motor/fermento" guardado desde a primeira relação para impulsionar o seu desejo para cima. Quando eles se unem, o homem faz descer uma gota de luz e bondade espiritual (Mayin Dukhrin), vinda do seu potencial masculino. Ao mesmo tempo, a mulher libera uma gota de força e julgamento sagrado (Mayin Nukvin), impulsionada por aquele 'motor' inicial que ela recebeu na primeira relação.
O encontro e a união real dessas duas gotas específicas [intenções espirituais] é o que de fato dá forma ao feto e a alma do bebê dentro do útero.. Toda luz e toda alma nova precisam vir direto da Fonte Suprema (Ein Sof - O Infinito). Para que um casal consiga gerar um filho na Terra, a energia precisa cascatear desde o Criador, passando por vários níveis de mundos espirituais super elevados, até chegar a nós. As orações diárias (como o Shema Yisrael e a Amidá) servem exatamente para isso e são chamadas também Mayin Nukvin (o anseio feminino).
Quando a pessoa reza com a intenção correta, ela está ajudando a abrir as "comportas" desses mundos superiores para que essa energia renovada desça ao nosso mundo. A alma do bebê é pura e frágil. Para protegê-la de energias negativas, o pai e a mãe doam uma "pequena lasca" de suas próprias energias vitais antigas para criar uma vestimenta espiritual (um escudo protetor) ao redor da alma do filho. A mulher tem uma quantidade exata dessa energia reserva para doar como "vestimenta" ou "fermento" para os filhos.
Quando esse estoque extra acaba, restando apenas a energia necessária para a sua própria sobrevivência, o ciclo menstrual cessa e ela não pode mais engravidar. O fermento acabou, restando apenas a vitalidade da própria pessoa e esse é o segredo do nascimento de Benyamin (que era chamado Benoni - filho do meu vigor), que sua mãe Rachel doou a sua própria Nefesh para ele e assim que a alma passou para ele, ela expirou. Retornando ao assunto, essa primeira pequena luz que o marido dá à mulher e que é um aspecto de Nefesh dele, é o que o texto do Shaar haGilgulim está explicando e chama de Ruach, pois apesar de ser uma Nefesh, ela provém do macho].
E eis que foi explicada a distinção que há entre aquele que morreu sem filhos e veio no segredo do yibum, e aquele que morreu por causa das demais transgressões da Torá, que veio em gilgul conforme o encontro, e não por meio de yibum.
E eis que também todos os detalhes mencionados se aplicam ao ruach e à neshamah, conforme o caminho do que explicamos no assunto das centelhas da nefesh.
Ainda há uma outra distinção entre o yibum e o gilgul, e isto é aquilo que foi explicado por nós no início deste ensinamento: pois eis que aquele que vem em Gilgul no segredo do yibum, já que o seu primeiro corpo é considerado como se não tivesse existido de modo algum, como foi mencionado — e por esta razão a nefesh vem em gilgul com a totalidade das suas partes, como foi dito — resulta que isto é uma construção realmente nova.
E por isso se enrolarão/circularão (virá em Gilgul) com ela também o ruach e a neshamah, os três juntos. Porém, não de uma só vez: mas sim quando ele merecer e fizer as mitsvot adequadas ao ruach, entrará nele o ruach; e assim também no assunto da neshamah.
Da mesma forma como explicamos acima no início de todo o ensinamento, sobre o assunto do início da vinda do homem a este mundo, sendo ele realmente novo, sobre o qual é mencionado no Saba de Mishpatim: “mereceu mais, dão-lhe ruach, etc.; mereceu mais, dão-lhe neshamah etc.”
Ao contrário disso, no megulgal (aquele que vem em gilgul), como será explicado. E por isso também aquele que vem no segredo do yibum, sendo semelhante a uma construção nova, pode alcançar os três, נר״ן (Naran – Nefesh, Ruach, Neshamah), juntos naquela vez, conforme as suas ações, como foi mencionado.
E este é o segredo do versículo: “Se ele puser sobre ele o seu coração, o seu ruach e a sua neshamah ele recolherá para si” [Jó 34:14], que é exposto no ensinamento sobre aquele que vem no segredo do yibum, no Saba de Mishpatim.
E a sua explicação é como foi dito: pois assim como há força na mão do irmão do falecido (o que faz o yibum) para fazer retornar a parte da nefesh de seu pai a este mundo por meio do yibum, assim também há força naquele yibum para fazer retornar e recolher para si toda aquela nefesh, também o seu ruach e a sua neshamah juntos. Mas isso é por meio de boas ações, como está escrito: “Se ele puser sobre ele o seu coração” (ibid.).
[Veja Sulam Zohar Mishpatim 108 a 120: “Aquele ruach que sai deste mundo, que não cresceu e não se expandiu neste mundo — isto é, que não tem filhos — vai em gilgul e não encontra descanso; e vem em gilgul no mundo como kaf ha-qéla‘ (pedra na funda), até que encontre aquele goel (redentor) que o redima, isto é, o cunhado que faz yibum com a sua cunhada, e o traz naquele mesmo recipiente, literal e exatamente, que ele usava e ao qual estava sempre apegado — o seu ruach e a sua nefesh — e a sua bat zugo (parceira) era ruach com ruach (com ele), isto é, em sua esposa. E aquele goel o constrói como no início, isto é, que o traz no filho que nasce da cunhada, que é sua esposa, e ele retorna à vida deste mundo como no início.
E aquele ruach que ele deixou com ela na primeira união, como está dito abaixo, que o marido deixa em sua esposa o seu ruach na primeira união, e se apega àquele recipiente, isto é, à sua esposa — que não se ausenta dela jamais, até mesmo após a sua morte — não se perde. Pois não há coisa no mundo, até mesmo pequena, que não tenha lugar e posição para se ocultar e vir para lá, e não se perde jamais. E por causa disso, aquele ruach que ele deixou naquele recipiente está ali; e ele certamente persegue a sua raiz e o seu fundamento, de onde saiu, isto é, o marido que morreu sem filhos; e ele o traz e o constrói em seu lugar, isto é, no lugar daquele ruach que é sua parceira, que saiu com ele, isto é, em sua esposa, e ele é construído ali como no início. E isto agora é uma criatura nova no mundo: um ruach novo e um corpo novo.
E se disseres: este ruach que está no filho que nasce é o que era, isto é, o próprio homem, e não o ruach que ele deixou com ela na primeira união, que é apenas uma parte dele. E ele responde: assim é; mas ele não é construído no filho que nasce senão pela força daquele outro ruach que ele deixou naquele recipiente, em sua esposa. Aqui há o segredo dos segredos, no livro de Chanoch. Esta construção que é construída no filho que nasce do yibum não é construída senão pela força do outro ruach que ele deixou ali naquele recipiente, isto é, em sua esposa na primeira união. E quando começou a ser construído, este ruach puxa atrás de si aquele ruach que foi nu, sem filhos, e o puxa para junto de si. E tornam-se ali dois ruchot que são um. Depois, este se torna ruach e aquele se torna neshamah, e ambos são um.
Se ele mereceu purificar-se como é apropriado, ambos se tornaram um, para que se vista neles uma outra neshamah superior. Assim como há para as demais pessoas do mundo um ruach que as neshamot merecem — aquelas que se adiantam e se apegam a ele, isto é, as neshamot dos guerim — e ainda um outro ruach de cima, e a neshamah sagrada se veste neles, em ambos, nos dois (como acima, no parágrafo 107); assim também, do dele mesmo, literal e exatamente, há dois ruchot: isto é, o seu próprio ruach e o ruach que ele deixou em sua esposa na primeira união, para que se vista neles a neshamah superior.
Ele pergunta: já que há para este um outro corpo, que agora foi construído de novo por meio do yibum, aquele primeiro corpo que ele deixou — o que foi feito dele? Ou este foi em vão, ou este foi em vão. Pois, segundo o entendimento do ser humano, parece que este primeiro corpo, que não se completou no início, se perdeu, porque ele não mereceu. Se assim, em vão ele se ocupou com as mitsvot da Torá, até mesmo se ele se ocupou apenas com uma delas; e nós sabemos que até mesmo os ‘vazios’ de Israel estão todos cheios de mitsvot como uma romã. E este corpo, embora não tenha se completado para se multiplicar e merecer e crescer no mundo, outras mitsvot da Torá ele guardou, e elas não se perderam dele — e teria sido em vão?
Companheiros, companheiros, abram os olhos, pois eu sei que vocês pensam e sabem que todos estes corpos são assinalados com sinais em vão, que não têm existência para sempre. Não é assim. E longe de nós olhar para coisas como estas.
“O ancião abriu e disse: ‘Quem narrará os atos poderosos de HaShem, fará ouvir todo o Seu louvor?’ Quem há no mundo que possa falar dos atos poderosos que o Santo, bendito seja Ele, faz sempre no mundo? Aquele primeiro corpo que ele deixou não se perde, e terá existência no futuro por vir. Pois já recebeu o seu castigo de muitas maneiras, e o Santo, bendito seja Ele, não retira a recompensa de nenhuma criatura que Ele criou, exceto aqueles que saíram da Sua emunah, e não houve neles bem jamais. E exceto aqueles que não se curvaram em “Modim” , na oração das Dezoito, pois desses o Santo, bendito seja Ele, faz outras criaturas, porque aquele corpo não será construído na forma de um ser humano, e não se levantará jamais. Mas quanto àqueles que morreram sem filhos, não é assim.
O que o Santo, bendito seja Ele, faz? Se aquele ruach mereceu ser retificado neste mundo, naquele outro corpo, o que o Santo, bendito seja Ele, faz?
Aquele goel que o redimiu, isto é, o cunhado: aquele ruach dele que ele introduziu ali, e que ele associou e misturou com aquele ruach que estava naquele recipiente, que seu irmão deixou nela na primeira união, certamente não se perde. Então o que é feito dele? Pois há três ruchot ali: um ruach que estava naquele recipiente e permaneceu ali, isto é, o que seu irmão falecido deixou nela na primeira união; e um ruach do próprio irmão falecido, que foi atraído para lá, que estava nu, sem filhos; e aquele ruach que aquele redentor introduziu ali, isto é, o cunhado, e se misturou com eles. Ser em três ruchot é impossível — então o que é feito?
Mas sim, assim são os atos poderosos superiores que o Santo, bendito seja Ele, faz. Aquele ruach que aquele goel introduziu ali — nele se veste a neshamah, no lugar da vestimenta vinda das neshamot dos guerim. E aquele ruach do falecido, que estava nu, sem filhos, que retornou ali para ser construído de novo, será vestimenta para a neshamah superior. E aquele ruach que estava no início, que permaneceu naquele recipiente, isto é, o ruach que o seu marido falecido deixou nela na primeira união, voou de lá; e o Santo, bendito seja Ele, prepara um lugar dentro do segredo da janela na rocha, que está atrás do Gan Éden, e ele se oculta ali. E ele sobe ao primeiro corpo daquele falecido sem filhos, que ele tinha no início. E com aquele ruach se levantará aquele corpo na ressurreição dos mortos. E isto é ‘um que são dois’, que eu disse (acima, parágrafo 15).
Mas aquele corpo, até que se levante para a ressurreição, seu castigo é grande: pois, por não ter merecido crescer em filhos, fazem-no descer para dentro da terra próxima de ‘Arqa’, pois há sete terras: ‘Eretz, Adamah, Gai, Neshiyah, Tziyah, Arqa, Tevel’ (como foi dito). E ele é julgado ali, e depois o fazem subir para este ‘Tevel’, em que nós estamos. Agora ele desce de volta para ‘Adamah’, e agora sobe; eis que sobe e eis que desce; não tem descanso exceto nos Shabatot, e nos Yamim Tovim, e nos Rosh Chodashim.
Muitos são os que dormem na terra do pó: ‘Adamah’ é chamada por ser ‘de Adamah’; ‘afar’ é chamado por ser ‘de Tevel’. E sobre estes está escrito: ‘E muitos dos que dormem na terra do pó despertarão: estes para a vida eterna e estes para opróbrios e para repulsa eterna’. Se aquele ruach nu mereceu — isto é, o ruach do falecido sem filhos — pois ele retornou a este mundo como no início, isto é, no filho que nasce do yibum, para ser retificado, ele é merecedor. Pois aquele ruach que ele deixou na primeira união em sua esposa, que dissemos sobre ele que se ocultou na rocha (acima, parágrafo 116), será retificado naquele primeiro corpo que o falecido sem filhos deixou (como acima, parágrafo 115). E sobre estes está escrito: ‘estes para a vida eterna e estes para opróbrios e para repulsa eterna’, isto é, todos aqueles que não mereceram ser retificados.
(...) Este que foi construído agora, isto é, o falecido sem filhos que se ‘rolou’ no filho que nasce do yibum, e saiu ao mundo como uma criatura nova, não tem bat zug (parceira). E por isso não proclamam sobre a sua bat zug antes que ele nasça, pois a sua bat zug se perdeu dele: a bat zug que ele tinha torna-se sua mãe, e seu irmão torna-se seu pai.
Este texto do Zohar explica o mistério espiritual do Yibum (a lei do cunhado que se casa com a viúva do irmão que morreu sem deixar filhos) e o destino da alma e do corpo desse homem que faleceu. Quando um homem morre sem ter filhos, o texto afirma que a sua alma fica sem descanso, vagando sem rumo como uma pedra lançada por uma funda, fazendo gilgul no domem e no tzomeach porque ela não cumpriu a missão de crescer e se expandir no mundo. A única forma de resgatar essa alma é através do cunhado, que atua como um redentor. Para que esse resgate aconteça, o Zohar revela que a energia deixada pelo primeiro marido na esposa nunca se perde. Lembra daquela energia vital permanente que o marido instala na esposa na primeira relação de todas? O texto explica que essa energia (o ruach da primeira união) permanece no corpo da esposa mesmo após a morte do marido e funciona como um ímã ou um farol espiritual.
Quando o cunhado se une à viúva, a força daquela energia antiga atrai de volta a alma nua do irmão falecido que estava vagando. No bebê que nasce dessa união do cunhado com a viúva, ocorre um fenômeno impressionante: a alma do irmão falecido reencarna ali, voltando ao mundo como uma nova criatura, com um corpo novo e um espírito novo. No processo de formação dessa criança, a energia antiga da primeira união e a alma que estava vagando se fundem e se tornam uma só, servindo de base para receber uma alma ainda mais elevada. Diante disso, surge uma grande questão: o que acontece com o primeiro corpo do homem que morreu?
O Zohar enfatiza que Deus não destrói ou descarta esse primeiro corpo e que ele não existiu em vão, pois mesmo não tendo filhos, aquele homem praticou boas ações e mandamentos durante a vida. Esse primeiro corpo passará por um julgamento severo e doloroso no pós-morte, subindo e descendo por dimensões espirituais profundas chamadas de diferentes "terras" e encontrando descanso apenas no Shabat e nos dias sagrados. Porém, no futuro, na ressurreição dos mortos, esse primeiro corpo também vai se levantar e viver. Isso é possível porque Deus faz uma separação milagrosa das energias no momento do Yibum: na união com o cunhado, entram em cena três energias espirituais (a energia da primeira união do falecido, a alma nua do falecido e a energia do próprio cunhado).
Como três energias não podem habitar o mesmo bebê, a energia do cunhado e a alma reencarnada do falecido ficam com o novo bebê, enquanto aquela energia original da primeira união voa dali, fica guardada por Deus em um esconderijo espiritual e, no momento da ressurreição, reentra no primeiro corpo para que ele ganhe vida novamente. Por fim, o texto traz um detalhe intrigante sobre a vida desse homem que reencarnou como filho de sua ex-esposa com seu irmão: por causa dessa reviravolta espiritual, a sua antiga parceira de alma agora se tornou a sua própria mãe, e o seu irmão se tornou o seu pai, fazendo com que ele retorne ao mundo como uma criatura totalmente nova e sem uma alma gêmea designada antes de nascer.]
Porém, o gilgul que não é por meio de yibum não tem força neles para atrair os três, mas sim apenas um após o outro, como foi mencionado acima. Pois, no início, a nefesh virá em gilgul sozinha, até que faça tikun completamente e morra. [continua...]